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Troca de líder em Havana pesa pouco na relação com EUA

ISABEL FLECK

HAVANA, CUBA (FOLHAPRESS) – Às 16h desta segunda (16), 20 tiros de canhão foram disparados da Fortaleza de San Carlos de La Cabaña, em Havana, para lembrar os cubanos do dia em que Fidel Castro, em 1961, proclamou o caráter socialista da revolução. No dia seguinte, ocorreria o primeiro ataque americano na tentativa frustrada de tomar a Baía dos Porcos.

Esta semana de abril é sempre tomada pela celebração da vitória cubana sobre os Estados Unidos, no dia 19 de abril —data em que, não por coincidência, ocorrerá neste ano a mudança de comando no governo da ilha.

Miguel Díaz-Canel, provável sucessor de Raúl Castro à frente do Conselho de Estado, assumirá num momento de escalada retórica entre os dois países, iniciada após a decisão do presidente Donald Trump de rever parte do acordo assinado em 2014 e que ficou mais evidente na Cúpula das Américas em Lima, no Peru, no último fim de semana.

Às margens do encontro, o interino à frente do Departamento de Estado, John Sullivan, se reuniu com membros da sociedade civil cubana contrárias ao regime para “demonstrar apoio ao povo cubano diante da contínua repressão do seu governo”.

Em nota, o Departamento de Estado classificou a sucessão como “transição da liderança antidemocrática” em “processo eleitoral falho”.

O vice-presidente americano, Mike Pence, por sua vez, disse que o regime cubano “roubou a vida de um povo orgulhoso” e que seu governo tem tomado medidas para “apoiar o povo cubano e enfrentar seus opressores”.

A resposta cubana veio pelo ministro das Relações Exteriores, Bruno Parrilla, que representou Castro na cúpula: “Cuba não aceitará ameaças nem chantagem do governo dos Estados Unidos. Não deseja a confrontação, mas não negociará seus assuntos internos, nem cederá”.

RETROCESSO

Em junho, em discurso que reuniu exilados cubanos em Miami, Trump anunciou que estava “cancelando” o acordo firmado entre Castro e Barack Obama, que havia permitido, entre outros movimentos de aproximação, a reabertura das embaixadas dos dois países em 2015.

Na prática, o que Trump fez foi voltar a restringir as viagens de americanos à ilha (leia ao lado) e proibir transações comerciais entre empresas americanas e entidades militares cubanas.

No entanto, três meses depois, o governo anunciou que retirava 60% dos seus funcionários da embaixada em Havana após supostos “ataques sônicos” que teriam atingido mais de 22 americanos.

Segundo o Departamento de Estado, diplomatas, servidores e familiares teriam sintomas como perda de audição permanente, lesão cerebral leve e problema de visão.

Cuba negou envolvimento nos supostos nos ataques. Uma semana depois da retirada americana, os EUA expulsaram 15 diplomatas cubanos de Washington.

Para William LeoGrande, da American University em Washington, a redução do efetivo nas embaixadas foi o mais prejudicial para a retomada da relação que estava sendo conduzida desde 2014.

Ele é coautor de “Back Channel to Cuba: The Hidden History of Negotiations between Washington and Havana” (Canal para Cuba: a história oculta das negociações Washington-Havana).

“Apesar da retórica de Trump, ele reverteu só parte da abertura feita por Obama. O enxugamento das embaixadas causou mais danos —especialmente para viagens e comércio”, diz LeoGrande.

Michael Bustamante, professor da Universidade Internacional da Flórida, destaca que os dois governos ainda mantém encontros de trabalho em temas de preocupação mútua, como imigração, e que os cubanos-americanos podem viajar para a ilha.

Ele, no entanto, considera que a redução de status das embaixadas —que hoje operam apenas “funções diplomáticas e consulares básicas”, com emissões de visto restritas— teve efeito “devastador” para os cubanos que vivem na ilha e nos EUA.

Nas ruas de Havana, a maioria dos cubanos consultados pela reportagem manifestou o desejo de que a reaproximação seja retomada, sobretudo por razões econômicas.

Contudo, parece consenso que, independentemente de quem liderar o governo em Cuba, isso não ocorrerá durante o governo Trump.

“Não interessa o que Cuba faça, o governo Trump não se interessa em melhorar a relação”, diz Leogrande. Bustamante concorda. “Não vejo melhora no curto prazo, sobretudo após Pence retomar a retórica da Guerra Fria na Cúpula das Américas.”

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