You are here

Rui Rio. Eis o homem

Era o dia 17 de dezembro de 2001. No 351º dia do ano do calendário gregoriano, na então muito nutrida redação do Expresso no Porto discutiam-se os resultados das eleições autárquicas disputadas na véspera. O PSD obtivera uma vitória histórica. Sozinho ou coligado, conquistara 159 das 308 câmaras em disputa. O motivo de espanto e do prolongar das conversas era, porém, outro. Contra todas as expetativas, prognósticos, sondagens ou aparentadas, a Câmara do Porto tinha um novo presidente, e não era o regressado Fernando Gomes. Ninguém, ou quase ninguém, contara com tamanha reviravolta. Na verdade, poucos, a começar pelas estruturas do PSD, tinham valorizado a candidatura de Rui Rio, o inesperado vencedor. E não faltava quem manifestasse alívio, quanto mais não fosse pela mudança em si mesma. Nessa altura, um à época jovem jornalista já bom conhecedor do percurso e de algum pensamento do surpreendente vencedor deixa um aviso que a todos intriga: “Não o conhecem, mas Rui Rio vai surpreender muito”.

Todos estes anos passados, e no momento em que o ex-presidente da Câmara do Porto se prepara para disputar a presidência do PSD, a frase continua a fazer todo o sentido. Passaram 16 anos desde aquele momento inicial e, em rigor, é ainda possível dizer de Rio que continua a surpreender, desde logo porque, em todo este tempo, não se deu muito a conhecer, ou porque, quando se revela, o faz com propostas tantas vezes inusitadas.

Há em Rio uma propensão para o autoritarismo

Há em Rio uma espécie de neblina, por momentos impeditiva de um conhecimento rigoroso de algum do seu pensamento, como se percebe pelas discussões que já vão surgindo sobre se vai apenas ser um dinamizador de uma espécie de bloco central; se tem um não um programa político sólido; se tem mesmo um programa político que vá para lá de um conjunto de noções, umas de simples bom senso, outras radicadas numa certa propensão para a demagogia namoradeira de algum populismo à mistura com autoritarismo. E, no entanto, é possível encontrar em Rio todo um conjunto de atitudes que acabam por destruir estas perceções sobre si próprio que ajudou a consolidar nos outros.

Ao longo dos anos tem protagonizado alguns paradoxos. Se por um lado tem colada à pele a imagem de alguém em permanente conflito com a comunicação social, de que os desentendimentos com o “Público” e o “JN” são exemplos paradigmáticos, mas não exclusivos, por outro lado foi durante anos e anos uma espécie de menino querido de um vasto conjunto da imprensa sediada em Lisboa, muito pelo modo como decidira afrontar o FC Porto.

Ficaram célebres as batalhas a propósito do Plano de Pormenor das Antas, que desembocou na construção do Estádio do Dragão. O nível de degradação das relações com o clube chegou ao extremo de as celebrações das vitórias deixarem de ter o edifício da CMP como palco. Luís Filipe Menezes, que não desperdiçava uma oportunidade para se demarcar de Rio, acolheu o Centro de Estágios do FCP em Gaia e chegou ao ponto de condecorar Pinto da Costa e os jogadores após uma conquista europeia.

Seja qual for o ângulo de abordagem de um perfil de Rui Fernando da Silva Rio, nascido no Porto a 6 de agosto de 1957, é impossível não dar o maior relevo à sua passagem pela autarquia portuense. Foi o local onde mais se expôs e onde de uma forma continuada se viu obrigado a dar mais expressão pública ao seu pensamento. Ali comprou guerras, e não apenas com o mundo da cultura. Ali criou inimizades para a vida. Ali construiu sólidas ligações pessoais. Ali viveu uma vida quase monacal, de entrega absoluta à gestão camarária.

Durão Barroso lançou-o para a disputa da CMP

Pode falar-se da influência da educação no Colégio Alemão. Podem valorizar-se as circunstâncias em que chegou à presidência da Associação de Estudantes da Faculdade de Economia do Porto. Pode ser crucial abordar a importância política tida no PSD por um trio de “críticos”, entretanto desavindo, apoiantes de Francisco Pinto Balsemão, constituído por Rio, Menezes e Aguiar-Branco. Pode recordar-se o tempo de secretário-geral do PSD e o modo como afrontou o aparelho com o processo de refiliação. Pode ser relevante sublinhar que foi deputado durante dez anos e já integrou direções do PSD com Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso – que o terá indicado como candidato à CMP – e Manuela Ferreira Leite. Pode, até, servir de muleta repescar pela enésima vez a inimizade pessoal com Menezes (ou será o contrário?) depois de tanta amizade cultivada entre os dois. Tudo isso será importante, mas nada disso, por si só, chega para perceber um homem que em tempos dizia de si próprio estar à esquerda do PSD.

Liberal nos costumes, não hesitou em estar contra a posição dominante no seu partido aquando do referendo sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez. Percebe-se nele uma vontade de mudança, mesmo se acaba por assumir posições erráticas que nem sempre se percebe se são apresentadas com convicção, ao apenas ancoradas no gosto pela polémica. Por exemplo quando propõe que os votos em branco sejam traduzidos em cadeiras vazias na Assembleia da República, a suspensão de eleições em municípios endividados, ou um maior controlo público dos órgãos de comunicação social.

Com frequência sente-se mal interpretado. Aconteceu recentemente com a proposta de um imposto para pagar a dívida pública. Teve de vir esclarecer que não se tratava da criação de um novo imposto, mas antes de uma reformulação da coleta de modo a que os contribuintes tivessem a noção exata de quanto dos seus impostos é canalizado para a amortização da dívida.

Parco em entrevistas, sobretudo a jornais ou revistas, dizia na revista Visão que “as próximas eleições internas do PSD têm de refletir a vontade de mudança dos portugueses”.

Quer ser o protagonista dessa mudança. Anda há meses a preparar terreno. Percorreu grande parte do país em reuniões, conferências, palestras, e não apenas no âmbito do PSD. De alguma forma andou a apalpar o pulso ao país, com a certeza de que desta vez não teria margem para voltar a recuar.

A partir de hoje, vai a jogo. É oficial. Não surge nas mesmas condições em que Pôncio Pilatos apresentou Jesus, flagelado e atado com uma coroa de espinhos, desde logo porque não é crente, nem tem vocação para a autoflagelação. Também não terá uma multidão hostil a atrapalhar-lhe o caminho, apesar da memória não perdida pelas feridas provocadas em algumas estruturas do aparelho mais profundo.
Veremos, por isso, se, daqui a uns meses, o povo PSD estará ou não convencido, ao ponto de proclamar: Eis o homem.

Perfil originalmente publicado no dia 11 de outubro de 2017

Source

Related posts