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Radiohead mistura sucessos a novas canções e empolga público no Rio | Música no Rio de Janeiro

Foram poucas as vezes nas quais o Radiohead se comunicou com o público durante a apresentação realizada na noite desta sexta-feira (20), na Jeunesse Arena, Barra da Tijuca. Que fique claro: comunicação por meio de conversas. À exceção de uma série de “Obrigados!” disparados pelo vocalista Thom Yorke, a banda inglesa pouco ou nada se dirigiu à plateia.

Quem não esteve entre os 10 mil presentes poderia imaginar um possível clima de frieza entre músicos e o público – e esse seria um grande erro. Sim, porque se faltou bate-papo, algo que, convenhamos, nunca foi o forte da banda, as músicas do grupo garantiram um diálogo permanente com os fãs durante as quase duas horas e meia de show.

Com um atraso de 13 minutos – algo incomum para bandas inglesas, sempre muito pontuais –, Yorke, os guitarristas Ed O’Brien e Jonny Greenwood, o baterista Phil Selway e o baixista Colin Greewood entraram no palco e deram início ao expediente com “Daydreaming”, do álbum mais recente do grupo, “A moon shaped pool”, de 2016.

Balada de piano e cordas com arranjos etéreos feitos por Jonny Greenwood e pela London Contemporary Orchestra, a canção traz uma letra que faz menções sutis à professora e artista plática Rachel Owen. Companheira de Yorke durante 23 anos, e mãe de seus dois filhos, ela morreu em dezembro de 2016, vítima de um câncer.

Em seguida, veio “Ful stop”, do mesmo álbum. Composição com evidente influência de bandas de Krautrock – movimento musical dos anos 1970 caracterizado pela fusão de Rock com música eletrônica. Ao ouvi-la, é quase Impossível não lembrar dos trabalhos do Kraftwerk.

Ambas prepararam o terreno para duas canções bem conhecidas dos fãs: “15 step” – primeira incursão no álbum “In rainbows” (2007) no show. Nascida das experimentações feitas pela banda com ritmos incomuns, a composição puxou “Myxomatosis”, conhecida pelas mudanças de andamento incomuns da bateria de Phil Selway.

Chegou, então, a vez de “Lucky” – faixa da obra-prima da banda, o álbum “Ok computer” (1997) – e “Nude”. Esta última, uma das canções de atmosfera mais soturna já criadas pelo grupo de Oxfordshire.

Como ocorre em quase todas as vezes nas quais é apresentada, o público parecia estar em estado de transe. A delicada composição, cuja letra descreve um pessimismo implacável em relação à vida pontuada pelo baixo de Colin Greenwood e pela voz suave e fantasmagórica de Yorke, pareceu levar as pessoas que estavam no Jaunesse Arena para outro lugar – um lugar mais sombrio, sem dúvida.

Neste momento, Jonny Greenwood – que nos últimos anos vem se destacando como compositor de trilhas para o cinema, sobretudo nos filmes do diretor americano Paul Thomas Anderson – começa a tocar uma de suas guitarras com um arco de violoncelo. É a deixa para o início de “Pyramid song”, cuja estrutura teve grande influência do jazzista americano Charles Mingus.

Nascida de uma visita do vocalista a uma exposição egípcia em Copenhagen, capital da Dinamarca, durante as gravações do álbum “Amnesiac” (2001), a letra da canção discorre sobre a passagem do tempo a partir de preceitos budistas e de ideias do físico inglês Stephen Hawking, morto há pouco mais de um mês.

Uma das mais populares entre os fãs, “Let down” preparou o terreno para a explosão percussiva de “Bloom” e “Reckoner” – talvez a canção mais roqueira da apresentação. Como o próprio Jonny Greenwood já afirmou em inúmeras ocasiões, a principal frase de guitarra da composição tem clara inspiração no estilo de John Frusciante, ex-guitarrista do Red Hot Chilli Peppers. Basta ouvir a guitarra de “Scar tissue”, da banda californiana, para notar a semelhança.

De volta ao álbum mais recente, o Radiohead apresentou “Identikit”. Apesar de menos conhecida, o público se empolgou, sobretudo por conta da pegada mezzo-reggae que é percebida ao fundo da canção.

Em seguida, voltaram os hits: “I might be wrong” e a bela “No surprises” empolgaram a plateia, que reagiu de forma empolgada durante a execução de “Weird fishes/Arpeggi”, cujo refrão foi acompanhado com gritos entusiasmados.

Outra canção de “In rainbows”, a composição é conhecida não apenas pelos fãs da banda, mas também para quem já escutou com atenção a trilha internacional da novela “O outro lado do paraíso”, de Walcyr Carrasco.

“Feral” e a pesada “Bodysnatchers” encerraram a primeira parte da apresentação – reiniciada em menos de 10 minutos, com “Street spirit (Fade out)”. Primeira faixa do álbum “The bends” (1995) a aparecer no show, a canção baseada em composições do R.E.M. e também no livro “The famished road”, do escritor nigeriano Ben Okri, é uma das criações mais tristes e amadas pelos fãs da banda.

Seguiram “All I need” – descrita por revistas britâncias especializadas em música como a definitiva canção de amor obsessivo –, “Desert island disk” e “Lotus flower”. As três antecederam “National Anthem”, marcada pelo baixo galopante de Colin Greenwod, e “Idioteque”.

Esta última é um dos pontos expressivos do momento em que a banda fez as experiências sonoras mais radicais – os álbuns “Kid A” e “Amnesiac”. As guitarras saem de cena em favor de uma avalanche de samplers e baterias eletrônicas a serviço de uma melodia minimalista. Neste instante, a Jeunesse Arena ganhou ares de rave enquanto os fãs dançavam e cantavam em uma espécie de êxtase.

Após mais uma breve pausa, Yorke retornou ao palco e apresentou a acústica “True love waits”. Em seguida, foi a vez de “Paranoid android”, a épica mini ópera-rock do Radiohead. Com quatro partes distintas e criada a partir da fusão de outras três canções não finalizadas do grupo, a composição empresta o nome de um dos personagens principais de “O guia do mochileiro da galáxia”, de Douglas Adams.

A explosão de guitarras distorcidas em contraponto às partes de andamento reduzido foram acompanhadas com atenção pelo público, que cantou a letra do início ao fim.

A mesma empolgação pôde ser verificada no ato final: a clássica “Karma police” encerrou a apresentação do grupo britânico, que naquela noite foi precedida por eficientes shows de Junun – um dos vários projetos paralelos de Jonny Greenwood, aqui acompanhado do músico israelense Shye Ben Tzur e da orquestra indiana Rajasthan Express – e Flying Lotus, nome artístico do produtor, músico e rapper americano Steven Ellison.

Assim como “Paranoid android”, a letra de “Karma police” foi cantada sílaba por sílaba pela plateia. Após o grupo deixar o palco, o público repetiu várias vezes parte do refrão: “For a minute there, I lost myself, I lost myself”.

Era uma tentativa honesta de fazer com que os integrantes da banda voltassem ao palco – não funcionou. A entrada dos técnicos na arena e o acendimento de todas as luzes não davam margem a dúvidas: o show, de fato, havia chegado ao fim.

Na saída da Jeunesse Arena, era possível ver alguns fãs reclamando da ausência de sucessos como “Fake plastic trees” e “Creep” no repertório da apresentação. No entanto, a impressão geral era de felicidade.

Além disso, outra coisa também ficou constatada: a garantia de que a comunicação entre o Radiohead e seu público permanece sólida, pois esta prescinde de diálogos – é o tipo de conversação que se dá por meio de canções, algo raro já há alguns anos.

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