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Opinião: Por que turistas devem pagar mais do que locais

“Esperar que os turistas paguem mais para proteger e manter os locais de que desfrutam é moralmente defensável”, diz artigo que propõe “Imposto do Turista”

Por
Sally Everett, da Anglia Ruskin University

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20 ago 2017, 08h00

Artigo de Sally Everett, vice-reitora da Escola de Negócios da Anglia Ruskin University

Foi reportado recentemente que nos cafés de Bruges, na Bélgica, a batata frita é 10% mais cara para os turistas do que para os locais. Isso é explicado como um “desconto para o consumidor leal”, mas coloca os turistas automaticamente na faixa de preço mais alta.

Isso me lembrou de uma conversa que eu ouvi entre dois turistas na Sicília. Eles sentiam que eram considerados “carteiras ambulantes” pelos donos de negócios locais, um sentimento que eu frequentemente ouvi ser evocado por turistas ao caminharem por ruas estrangeiras.

 

O turismo já há muito tempo é visto como um caminho para a prosperidade econômica e uma fonte de receitas mais alta. É uma das principais indústrias mundiais, com uma contribuição econômica global acima de US$ 7,6 trilhões.

A Organização Mundial de Turismo, das Nações Unidas, projeta que até 2030, o número de desembarques internacionais de turistas chegará a 1,8 bilhão. Com um em 10 empregos no planeta dependendo do turismo (292 milhões de pessoas) e o equivalente a 10% do PIB global, não surpreende que as comunidades anfitriãs queiram desfrutar ao máximo das oportunidades que ele traz.

Um dos lugares mais famosos de aumentos de preços para visitantes é Veneza. O sistema de “duas faixas” usado pela cidade se tornou tão extremo que uma reclamação chegou na Comissão Europeia em 2015 alegando práticas discriminatórias contra turistas (e foi rejeitada).

E quando a Tailândia planejou introduzir um aumento nas taxas de parques nacionais em 2015, ficou claro que os preços mais altos seriam para os turistas e não para os locais. As taxas mais altas para “crianças e adultos estrangeiros” passaram a valer em fevereiro de 2015.

Preços diferenciados como estes parecem injustos. Mas se os locais começassem a pagar os mesmos preços dos turistas, é provável que muitos deles seriam impedidos de desfrutar dos patrimônios de suas próprias comunidades. Muitos não conseguiriam pagar o preço de suas próprias moradias. Seus salários raramente se aproximam do nível dos viajantes recebidos.

Guias de viagem são sempre os primeiros a alertar para você “não pagar o primeiro preço oferecido” em mercados locais. Preciso admitir, eu já tentei frequentemente “parecer uma local” escondendo minha câmera para evitar pagar “preço de turista”.

Mas eis uma argumento moral: a disposição para pagar preços mais altos pode na verdade representar uma abordagem mais responsável da sua viagem.

Um sistema de turismo de duas vias, em que os locais são cobrados menos pelo mesmo produto, pode ser uma forma de implementar práticas sustentáveis de turismo e proteger recursos valiosos.

Devemos considerar o impacto no longo prazo de pessoas passando por um mesmo local durante períodos curtos e intensos, frequentemente tirando apenas uma foto antes de voltar para seus grandes ônibus de turismo.

Questões de sustentabilidade precisam ser combinadas com uma consciência maior da dependência local do turismo onde as indústrias tradicionais decaíram e os recursos naturais foram esgotados.

Esperar que os turistas paguem mais para proteger e manter os locais de que desfrutam é moralmente defensável, seja em Bruges, Veneza ou Tailândia.

Uma forma de “imposto do turista” sobre comida, acomodação e atrações pode parecer injusto (ou mesmo discriminatório), mas o turismo não deveria ser uma transação de mão única. Os visitantes estrangeiros frequentemente colocam uma pressão significativa sobre recursos escassos e limitados em certos períodos do ano. Todos precisamos reconhecer esse impacto.

O conceito de “turismo pró-pobre” é uma das abordagens. Esta estratégia nos encoraja a ver o turismo como uma ferramenta para o alívio da pobreza, especialmente em alguns países que tem poucos recursos naturais ou mercados para exportação.

A habilidade dos gastos de turistas de trazer benefícios sociais, econômicos e culturais não deve ser subestimada. Uma gorjeta generosa ou a disposição de pagar mais diz muito sobre reconhecer a pressão (e dano) que os turistas podem colocar sobre infraestruturas frágeis e comunidades.

Reconhecer a contribuição positiva que turistas podem fazer é importante, mas é claro que precisamos ficar atentos para quando “impostos do turista” informais e práticas inflacionárias se tornarem exploradoras e fraudulentas.

Quando uma família em Roma foi cobrada 54 euros por quatro sorvetes, isso chegou aos jornais internacionais, levantando preocupações sobre como alguns operadores aumentam preços para visitantes.

Mas o exemplo é extremo, e uma simples checagem de preço antes da compra teria ajudado a família a evitar essa situação desagradável. Talvez mais preocupante seja o aumento de esquemas sofisticados que envolvem troca de bens, atos de fraude e falsas histórias de provação para extrair dinheiro de visitantes ingênuos.

Ser turista sempre inevitavelmente envolverá custos escondidos e adicionais. Alguns se justificam. Um grau de sensibilidade com as necessidades locais e com a responsabilidade social, na direção de recuperar os recursos e reparar o dano, precisa ser balanceado com a ingenuidade (e às vezes estupidez) com que fazemos nossas transações nas férias.

Traduzido por João Pedro Caleiro com permissão da autora

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