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O que aconteceu com o Real Madrid supercampeão? | ESPN FC

Dezesseis de agosto. Com extrema facilidade, o Real Madrid venceu o Barcelona por 2 a 0 no Santiago Bernabéu e confirmou o título da Supercopa da Espanha – uma semana depois de abocanhar a Supercopa da Uefa contra o United. Mais do que a taça, o triunfo categórico jogava no céu as expectativas para a temporada. A superioridade em relação ao maior rival era tanta que até os culés assumiam tal condição.

Vinte de setembro. Incapaz de balançar as redes, o Real Madrid perdeu para o Betis por 1 a 0 no Santiago Bernabéu, na quinta rodada de La Liga, e viu a distância para o líder Barcelona aumentar para sete pontos. Nas três primeiras partidas em casa no campeonato, dois pontos, três gols a favor e quatro sofridos. De quebra, encerrou em 73 a sequência de partidas consecutivas marcando, no dia em que poderia ultrapassar o Santos de Pelé.

Apenas 35 dias entre uma partida e outra. Duas das sensações mais distintas que o futebol pode oferecer. O que justifica um time supercampeão enfrentar questionamentos tão severos – e justos – em pouco mais de um mês? Como a complexidade do assunto sugere, é impossível apontar um único culpado – ou um único motivo – para a involução da equipe. Daí a ineficácia de uma caça às bruxas no Bernabéu.

O primeiro eleito foi Karim Benzema. O atacante colecionou gols perdidos no começo da temporada – Valencia que o diga – e reabriu o debate: falta um 9 goleador no elenco? A diretoria errou ao vender Morata e Mariano sem buscar reposição à altura? (spoiler: sim, errou). O cenário rendeu infinitas lamentações pela suspensão de Cristiano Ronaldo. O diagnóstico era claro: só ele resolveria a falta de gols. Pois bem, o português voltou e o Real Madrid ficou em branco pela primeira vez em 74 jogos.

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O buraco é mais embaixo

O fim da extensa marca nada tem a ver com o retorno de Cristiano, que fique bem claro. Serve para ilustrar que soluções simplistas e individuais – mesmo em se tratando de CR7 – resolvem os problemas até a página dois. Terceiro componente do trio que um dia convencionou-se chamar de BBC, Gareth Bale também está entre os alvos preferidos das cornetas madridistas. Incluo-me no grupo. Outrora veloz como um raio e forte como uma rocha, o galês aparenta jogar carregando uma bigorna de dez toneladas, golaço contra a Real Sociedad à parte.

A fase negativa de Bale e Benzema contrasta com o crescimento interminável de Marco Asensio. O jovem de 21 anos vive grande momento e é o artilheiro do time na temporada, com quatro gols, mas segue preterido por Zinédine Zidane quando as principais peças ofensivas estão à disposição. O treinador fez escolhas questionáveis nesse início de 2017/18. É o que basta para colocarem sua qualidade em xeque, um mês depois de surgir como grande favorito ao prêmio de melhor técnico do mundo.

Zizou errou feio na escalação contra o Levante. A opção por Marcelo e Theo juntos na esquerda mostrou-se equivocada, porém persistiu até o brasileiro ser expulso. Na derrota para o Betis, mexeu mal ao sacar Modrić e Isco, dupla que mais produz no setor ofensivo. A direção de campo do treinador, por sinal, sempre foi um de seus pontos fracos, com dificuldade para intervir a favor de sua equipe no jogo.

O método do francês já rendeu muitos títulos ao clube, mas a cobrança precisa ser feita, pois ele ainda não é um profissional perfeito. Assim como o Real Madrid atual carece de desenvolvimento para chegar perto desse status, apesar de já ter o nome marcado na história do futebol. O time deixa as melhores impressões possíveis nos grandes jogos, mas os feitos e as taças mascaram uma realidade bem diferente nas semanas menos badaladas da temporada. A dominância madridista não é algo linear ao longo das jornadas domésticas.

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Treinador vive o momento mais difícil da curta e vitoriosa carreira

A sequência de tropeços em casa, em um primeiro momento, pode parecer absurda e repentina. Na última Liga, porém, o sofrimento no Santiago Bernabéu foi uma constante, embora a conquista e os números não tenham refletido esse aspecto – 14 vitórias, quatro empates e uma derrota.

Em cinco dos triunfos – Celta, Athletic, Deportivo, Betis e Valencia – o gol decisivo saiu nos dez minutos finais. Em três – Espanyol, Alavés e Sevilla – o Madrid chegou na reta final da partida com apenas um gol de frente e depois ampliou a vantagem. Nos confrontos com Sporting e Málaga, segurou o 2 a 1.

A equipe ganhou em casa com tranquilidade em apenas quatro rodadas, três delas diante de adversários da parte baixa da tabela: Osasuna (19º), Leganés (17º) e Granada (20º). Os outros três pontos foram em um 3 a 0 categórico sobre a Real Sociedad, que terminou em sexto lugar. Dos quatro empates, em três – Villarreal, Eibar e Las Palmas – os visitantes chegaram a liderar o placar. Daquela derrota amarga para o Barcelona eu não preciso lembrar.

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Em busca da melhor versão

Mesmo com essas características, o senso comum diz que o Real Madrid passeia em La Liga, em especial em casa – tentativa reles de desmerecer a competição. Ao observar os dados acima, vemos que é uma inverdade. Mas sem fugir do ponto principal: a dificuldade de vencer no Bernabéu não é exatamente uma novidade, e a superioridade flagrante contra os grandes adversários não se repete em jogos menores.

Se já não era fácil vencer essas partidas, por que os resultados vieram em 2016/17 e não estão vindo em 2017/18? A resposta simples e rasa é sorte. “Sorte” é a palavra para resumir toda a aura da mentalidade vencedora deste elenco, que arrancou muitos pontos na marra na última temporada – geralmente em gols de Sergio Ramos. O ímpeto final, desta vez, tropeça na falta de pontaria e nas atuações monumentais de goleiros que fizeram partidas incorrigíveis contra o Real Madrid, casos de Raúl Fernández, do Levante, e Adán, do Betis (revelado pelo Madrid). E aí voltamos ao problema inicial dos atacantes.

Está tudo interligado. A falha pontual da diretoria aumenta a pressão em treinador e jogadores, que cometem erros e os deixam expostos pela decepção dos resultados. O alerta está ligado, mas todas as partes do clube precisam de paciência para evitar a interrupção de um projeto vencedor e duradouro. Sem esquecer os ajustes necessários para alcançar uma regularidade que defina como regra – e não exceção – os desempenhos soberbos em decisões.

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