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Instituto Butantan cancela cartões corporativos após denúncias de irregularidades | São Paulo

Auditoria interna feita há dois anos apontou irregularidades na gestão do médico Jorge Kalil e, para pesquisadores instituto, foi retomada por disputas políticas. Médico foi afastado do cargo.

Auditoria no Instituto Butantan revelou uma série de graves falhas administrativas e financeiras (Foto: Reprodução/G1)Auditoria no Instituto Butantan revelou uma série de graves falhas administrativas e financeiras (Foto: Reprodução/G1)

Auditoria no Instituto Butantan revelou uma série de graves falhas administrativas e financeiras (Foto: Reprodução/G1)

O Instituto Butantan, na Zona Oeste de São Paulo, cancelou todos os cartões corporativos de seus servidores nesta quinta-feira (1). O cancelamento ocorre em meio a investigações sobre irregularidades financeiras e administrativas na instituição durante a gestão do médico Jorge Kalil. Afastado em fevereiro de 2017 para apuração do caso, o cientista nega todas as acusações.

Uma auditoria interna do Instituto Butantan feita há dois anos apontou que Kalil usou cartão corporativo em período de férias e gerou despesas de mais de R$ 30 mil em passagens aéreas internacionais, falhas em processos de licitação, aumento do número de empregados na presidência, construção de uma fábrica de derivados de sangue que nunca operou, além da mudança no estatuto da fundação, que transferia toda a gestão do órgão para o instituto.

Um relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE) apontou ainda um sumiço de R$ 8 milhões em bens, inconsistências de valores, atraso de contas e diferenças no controle do almoxarifado.

O Instituto Butantan é um dos principais centros de pesquisa do país. Em nota, a direção do instituto informou que “está fornecendo todas as informações necessárias para a devida apuração do caso” e que “a nova direção do Instituto revogou, a partir desta quinta-feira, 1 de junho, todos os cartões corporativos”.

No dia 21 de fevereiro, o doutor Jorge Kalil foi afastado do cargo. Na ocasião, o Secretário da Saúde, David Uip, explicou ao G1 o motivo do afastamento, alegando que o cientista pretendia gerir tanto a Fundação Butantan, que é privada, quando o Instituto Butantan, que é do Estado.

“Em novembro de 2015, eu determinei que houvesse duas gestões separadas, uma para a fundação e outra para o instituto. Neste ano, o conselho curador [também presidido por Kalil] decidiu voltar para o modelo antigo, esvaziando a autonomia da fundação”, explicou o secretário de Saúde.

Por conta disso, o então presidente da Fundação Butantan, André Franco Montoro Filho, pediu demissão e fez menção ao relatório que indica irregularidades na gestão de Kalil. “Devido a essa incompatibilidade, o Montoro pediu demissão e repercutiu denúncias extremamente graves, que devem ser apuradas pela corregedoria, pelo TCE e pela curadoria da fundação”, continuou Uip.

A Secretaria de Estado da Saúde contratou uma auditoria externa para avaliar aspectos econômicos, operacionais e de gestão do Instituto Butantan e da Fundação Butantan. No dia 28 de março, a Pasta enviou documentação com a prestação de contas do Instituto Butantan para que a Corregedoria Geral investigasse o caso.

Pesquisadores e funcionários do Instituto Butantan prestam homenagem a Kalil (Foto: Vivian Reis/G1)Pesquisadores e funcionários do Instituto Butantan prestam homenagem a Kalil (Foto: Vivian Reis/G1)

Pesquisadores e funcionários do Instituto Butantan prestam homenagem a Kalil (Foto: Vivian Reis/G1)

O G1 compareceu à cerimônia na qual Jorge Kalil se despediu do Instituto Butantan, no dia 23 de fevereiro. Ele foi aplaudido de pé por pesquisadores e funcionários sob gritos de “Fica Kalil!”. Os cientistas disseram que Kalil foi afastado por questões políticas, sendo desconsiderado o trabalho que fez.

“O instituto se desenvolveu bem nos últimos anos, desde a infraestrutura até a pesquisa. Enfim, temos um diretor do tamanho da instituição. Isso é briga de ego. Briga política”, afirma a pesquisadora Denise Tambourgi.

“Todos nós apoiamos investigação. Somos pesquisadores, pessoas esclarecidas. Não condenados antes de investigar. Existem muitos compromissos e atividades em andamento que não podem ser interrompidas abruptamente. É prejudicial”, disse.

Kalil conversou com a reportagem e deu sua versão dos fatos. “O relatório que repercutiram estava na gaveta há dois anos porque não havia nenhuma pendência, tudo foi respondido na época. Existe uma má-fé na condução deste processo”, disse. “Sou absolutamente idôneo, trabalho há mais de 35 anos no serviço público em prol da ciência, da medicina e da educação. O que fizeram é um desrespeito e estou muito triste. Sou cientista e procuro a verdade”, completou naquele dia.

Procurado, o médico falou novamente com o G1 nesta quinta-feira. “Realmente, no ano passado fiz viagens. Foram 40 viagens de trabalho, todas curtas, cansativas, em que não parei um minuto, com a finalidade de transformar o Butantan em uma instituição reconhecida. Até o Obama falou do instituto”, explicou. “Para trazer esse reconhecimento precisa participar de congressos internacionais e conferências, e fazer negócios para trazer novas tecnologias”, continuou.

“Em 2010, o instituto estava demolido. Em 2011 eu assumi e fiz funcionar a vacina da gripe, reconstruí todo o parque industrial, refiz a vacina da tríplice bacteriana e a receita saltou de R$ 250 milhões, quando assumi, para R$ 1,6 bilhão”, conta. “Aqui no Brasil, eu recebia empresários do mundo todo que traziam novas possibilidades, e professores titulares muito reconhecidos da Inglaterra, da França, da Finlândia, da Itália que nos ajudavam nas pesquisas, nos desenvolvimentos”.

Kalil disse que até o momento, desconhece se ocorre uma nova investigação, já que não foi procurado, e que tem toda a documentação comprovando seus gastos. “Todas as minhas viagens e jantares foram pagos pela Fundação Butantan conforme as regras, com os recursos das pesquisas e das vendas das vacinas”, completou.

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