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Herói do bi da Libertadores, Elivélton relembra jogo e gol: “De testar o coração” | cruzeiro

Canhoto, atacante, que usou o pé direito para fazer garantir a vitória sobre o Sporting Cristal, fala sobre a noite em que o Mineirão, com mais de 95 mil torcedores, festejou o título de 1997

Bastava vencer. Uma vitória simples, por 1 a 0. O Cruzeiro jogava em casa, com mais de 95 mil torcedores empurrando o time para cima do adversário, o Sporting Cristal, do Peru. Mas não era um jogo qualquer. Tratava-se de uma final de Taça Libertadores. Há 20 anos, no dia 13 de agosto de 1997, uma oportunidade rara de erguer o troféu mais importante do futebol sul-americano. E o time cruzeirense conseguiu o segundo título da história do clube, que já havia sentido o gosto em 1976, ao derrotar a equipe peruana por 1 a 0.

Em 1997, Cruzeiro vence Sporting Cristal por 1 a 0 e garante bicampeonato da Libertadores

Em 1997, Cruzeiro vence Sporting Cristal por 1 a 0 e garante bicampeonato da Libertadores

A presença cruzeirense na grande decisão pode ter sido considerada improvável no começo da competição – a equipe perdeu as três primeiras partidas da fase de grupos, para Grêmio, no Mineirão, Alianza Lima e Sporting Cristal, ambos na capital peruana. A reação, seguida de uma grande arrancada, se deu com uma vitória de 1 a 0 sobre o Grêmio, no Estádio Olímpico, em Porto Alegre (que lembramos no dia 12 de março em uma reportagem com o ex-meia Palhinha). Depois, a Raposa bateu Alianza e Sporting Cristal, no Mineirão, e avançou para o mata-mata, onde deixou para trás El Nacional, do Equador, nas oitavas de final; o Grêmio, nas quartas; e o Colo-Colo, do Chile, nas semifinais.

A história da grande final daquela Libertadores passa pelo pé direito do atacante Elivélton, que era canhoto. Era o improvável jogando em favor do Cruzeiro, em um jogo repleto de tensão e ansiedade, mas também de confiança, que terminou com o gol da vitória de 1 a 0 marcado aos 30 minutos do segundo tempo (veja como foi no vídeo acima) e com o zagueiro e capitão Wilson Gottardo levantando a taça, a segunda Libertadores da história do clube.

Hoje, aos 46 anos, Elivélton, símbolo daquela partida, que mora em sua cidade Natal, Alfenas, onde tem uma escolinha de futebol para crianças de seis a 14 anos, conversou com o GloboEsporte.com sobre o dia em que foi herói de uma conquista da Libertadores. Para ele, a terceira da carreira (havia vencido duas vezes com o São Paulo, em 1992 e 1993). Um jogador vitorioso, que tem no currículo títulos do Campeonato Brasileiro (com o São Paulo em 1991) e Mundial (com o São Paulo em 1992), Copa do Brasil (com o Corinthians em 1995), além de estaduais. Apesar de não ser um troféu inédito na sua carreira, o atacante fala com um carinho especial sobre a conquista de 1997.

– Ah, nenhuma decisão é igual a outra. Cada uma tem a sua história, personagens diferentes… Apesar de eu ter sido campeão duas vezes com o São Paulo, essa com o Cruzeiro parecia ser a minha primeira (conquista). A gente viveu intensamente aquela Libertadores. Era motivo de muita honra ganhar aquele título. Tanto para nós, jogadores, como para a comissão técnica, a torcida, que foi fundamental para que a gente conquistasse. Foi um título muito especial para mim. O jogo foi de testar o coração da gente, né! Durante a semana só se falou nisso, nessa busca do bicampeonato. A gente tinha a oportunidade de fechar com chave de ouro. Foi uma semana especial. Começamos mal (a Libertadores), mas depois o time foi ganhando confiança, crescendo na competição, e chegamos na final. Era um momento ímpar para cada um de nós, jogadores.

Elivélton comemora após marcar o gol da vitória e do título do Cruzeiro em 1997 (Foto: Reprodução/TV Globo)Elivélton comemora após marcar o gol da vitória e do título do Cruzeiro em 1997 (Foto: Reprodução/TV Globo)

Elivélton comemora após marcar o gol da vitória e do título do Cruzeiro em 1997 (Foto: Reprodução/TV Globo)

Avalanche azul. Este termo foi usado por Elivélton mais de uma vez durante a conversa, para se referir ao grande número de torcedores cruzeirenses que receberam o ônibus da delegação no Mineirão. De fato, o público naquela noite superou a casa dos 95 mil. Segundo o atacante, tudo o que envolveu os dias que antecederam ao jogo, até o momento da chegada do time ao estádio, foi canalizado em energia positiva para que a vitória e o título viessem.

– Lembro que durante a semana só se falava no jogo, estava todo mundo ansioso para chegar logo a hora e entrar em campo. Um momento que eu guardo, que foi importante, e que lembro como se fosse hoje, foi a gente chegando no Mineirão. Era uma avalanche azul, a gente só via azul, azul, azul… Aquilo ali foi um ponto chave para cada um de nós, porque, antes da bola rolar, a gente via a empolgação do torcedor, a vibração, a energia que a torcida transmitiu para nós. No vestiário a gente só pensava “hoje, quando o juiz der o apito final, a gente tem que estar comemorando”.

Se por um lado a presença maciça de cruzeirenses significava incentivo e boas vibrações, por outro, os jogadores carregavam o peso da responsabilidade de vencer e conquistar o título. Elivélton brinca com o fato de a torcida do Cruzeiro ser “um pouquinho exigente”, mas destaca o papel fundamental que ela teve para ajudar os jogadores.

– A gente pensava sim, pois sabíamos da responsabilidade. Sabíamos que tinha uma torcida fanática, apaixonada, que estava ali. O nosso pensamento era entrar em campo e dar a vida, para conquistar a Libertadores. Quando a gente viu a torcida chegando, empurrando o tempo todo, a gente encontrando dificuldades, mas o torcedor incentivando… Porque a torcida do Cruzeiro é um pouquinho exigente, você sabe, né! (risos). Mas naquele dia, graças a Deus, eles viram que o Sporting Cristal estava bem postado, os caras jogaram demais. Então, a torcida do Cruzeiro incentivou, o estádio balançava, pelo amor de Deus! É como se fosse hoje, trago na memória, vejo o Mineirão balançando, tudo que estava em volta, a torcida gritando. Aquilo foi um ponto positivo para todos os jogadores, porque ninguém queria sair dali sem aquela taça nas mãos.

Elivélton diz que jogadores estavam focados em sair do Mineirão com a taça (Foto: Reprodução/TV Globo)Elivélton diz que jogadores estavam focados em sair do Mineirão com a taça (Foto: Reprodução/TV Globo)

Elivélton diz que jogadores estavam focados em sair do Mineirão com a taça (Foto: Reprodução/TV Globo)

Mais de 95 mil torcedores no Mineirão, mas, jogo duro dentro de campo. O Cruzeiro criou chances de abrir o placar, mas também viu o Sporting Cristal ficar perto de sair na frente. Elivélton lembra da grande atuação do goleiro Dida, que impediu que um desastre acontecesse naquela noite no Mineirão.

– Foi uma tensão muito grande para nós também, no vestiário, porque a gente sabia da grandeza do Cruzeiro, da responsabilidade de cada um entrar lá dentro (de campo) e dar raça. Enfrentamos um time muito bem postado, que deu trabalho pra caramba! A gente teve chances, mas o goleiro (Balerio, que faleceu em 2013, aos 55 anos, após ataque cardíaco) estava numa noite boa. Eles tiveram chances também, mas o Dida salvou a gente. Foi um teste cardíaco, viu? Se a gente levasse um gol, acho que não teríamos como reverter.

Trinta minutos do segundo tempo. Foi em um escanteio pelo lado direito que nasceu o gol da vitória. Elivélton conta que costuma ser o cobrador de escanteios, mas que Nonato foi para a batida. O atacante, então, ficou na sobra, fora da grande área, esperando por um rebote. Ele conta que, não sabe explicar o motivo, mas que ficou no ldo oposto ao que costumava ficar. Assim, quando se deu conta, a bola já estava vindo em sua direção, e Elivélton, canhoto, teve que chutar com o pé direito (confira a narração, na voz do próprio Elivélton, no vídeo abaixo).

Personagens do bi da Libertadores do Cruzeiro relembram aquele dia 13 de agosto

Personagens do bi da Libertadores do Cruzeiro relembram aquele dia 13 de agosto

– Eu sempre tive pensamento positivo, independentemente de onde a bola caísse, se no pé direito… Eu chutava mesmo, não estava nem aí. Já tinha chutado e não ia ter como voltar mais o lance, né? Não fui um craque, mas aproveitava as oportunidades que tinha da melhor forma. Quando saiu o escanteio, o Nonato foi bater. Geralmente, eu também batia. E eu estava numa posição que eu nunca ficava, que era do lado direito. Eu sempre ficava no rebote, mas do lado esquerdo. Não sei o que o zagueiro fez que, ao invés de jogar a bola para fora, jogou para o meio da área. Eu também estava no lugar errado (risos). Quando vi a bola, falei para o Gottardo “sai, Gottardo! Sai, sai!”, e soltei a perna direita. Não foi aquele chutaaaço, mas foi o suficiente para a gente tirar aquele peso. Já estava com 30 minutos do segundo tempo, a torcida impaciente, a gente também estava com muita tensão. E foi aquela explosão de alegria, aquela avalanche azul. Pude ver o Mineirão sacudindo com aquele gol que eu tinha marcado. Foi muito emocionante, eu vejo o lance direto na internet, sempre fico arrepiado. Deu tudo certo e a gente comemorou o título que tanto merecíamos, nós e a torcida, que sempre acreditou e incentivou, e que mesmo nos momentos em que quase saímos da Libertadores, estava com a gente.

Reconhecimento, aplausos e emoção

Após deixar o Cruzeiro, em 1998, Elivélton ainda rodou por várias equipes: Vitória, Internacional, Ponte Preta, São Caetano e Bahia, até chegar ao Uberlândia, em 2006. O time do Triângulo não foi o último na carreira do atacante – que depois ainda passou por Vitória-ES, União de Rondonópolis, Alfenense, Francana e Mixto, este último em 2010 -, mas foi na equipe mineira que ele teve a chance de reencontrar o Cruzeiro, a torcida cruzeirense e o MIneirão.

Desta vez como adversário, em 26 de fevereiro de 2006, Elivélton enfrentou a Raposa, pelo Uberlândia, em jogo da oitava rodada do Campeonato Mineiro. O Cruzeiro venceu por 2 a 0, com gols de Élber (ex-Bayern de Munique) e Diego, mas foi o autor do gol do título da Libertadores de 1997 quem roubou a cena. Ao ser substituído de campo, no segundo tempo, para a entrada de Rogério, Elivélton viveu a emoção de ser aplaudido de pé pelos mais de cinco mil torcedores cruzeirenses presentes no estádio. Uma sensação que ele relembra com muita gratidão.

– Como é que esquece? Estava no time adversário, nunca me aconteceu isso. Joguei no São Paulo, no Corinthians, no Internacional, no Palmeiras, em vários clubes grandes, nunca ninguém fez isso. A hora que levantou a placa indicando que eu ia sair, a torcida do Cruzeiro ficou de pé e começou a aplaudir. Eu disse “meu Deus do céu!”. Aquilo vai ficar marcado eternamente para mim! Meus companheiros de time ficaram todos emocionadíssimos, ninguém nunca tinha visto aquilo. Agradeço demais por tudo o que vivi no Cruzeiro!

 (Foto: Arte: Infoesporte) (Foto: Arte: Infoesporte)

(Foto: Arte: Infoesporte)

Sócio do futebol Cruzeiro (Foto: Divulgação/Cruzeiro)Sócio do futebol Cruzeiro (Foto: Divulgação/Cruzeiro)

Sócio do futebol Cruzeiro (Foto: Divulgação/Cruzeiro)

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