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Estudante baleada durante assalto na Praia da Reserva pediu melhorias na educação, há seis anos

Larisse foi operada na tarde deste domingo – Reprodução

RIO — “Para o Brasil, um ensino melhor seria um avanço e é disso que precisamos.” A frase faz parte de uma carta com críticas à educação que uma estudante de 15 anos da Escola Municipal Ceará, em Inhaúma, enviou para a então secretário da pasta, Claudia Costin. O ano era 2012. Passados seis anos, Larisse, a jovem cheia de projetos, cresceu. E venceu. Ela é aluna de Engenharia Química da PUC, com bolsa integral que conquistou com dedicação e boas notas. Com o sonho adolescente quase realizado — “quero me formar em uma boa faculdade”, dizia em seu relato à titular da Educação do município — Larisse foi além e hoje divide seus conhecimentos atuando como monitora de cálculo. Também dá expediente no laboratório da universidade, no campus da Gávea, e faz doces para bancar os custos da formação de alto nível que sempre desejou. O plano para o futuro próximo era estudar mais: pós-graduação na Espanha, em 2019.

Leia mais: Só nos resta rezar, diz namorado de estudante baleada em assalto na Praia da Reserva

Larisse não está hoje em uma sala de aula, mas isso não tem nada a ver com férias de verão. Ela foi baleada ontem na Praia da Reserva, entre a Barra e o Recreio, nos raros momentos de lazer de sua rotina diletante. Um assaltante que havia roubado banhistas atirou durante a fuga, após tentar levar o cordão de ouro de um policial à paisana. A estudante é mais uma vítima da rotina de violência do Rio, que já atinge níveis máximos neste início de ano. Um levantamento, com base em dados da Polícia Civil, mostra que 105 pessoas foram baleadas na primeira quinzena de 2018, contra 92 no mesmo período no ano passado, um aumento de 14%. Os homicídios também cresceram. Foram 63 casos de mortes por arma de fogo na cidade — em média, um assassinato a cada seis horas. O número é 36% maior do que o registrado em igual período de 2017.

Vítima foi atingida no abdômen por um tiro, na Praia da Reserva – Divulgação/Via Whatsapp

— Os médicos disseram que a cirurgia foi bem-sucedida, e que ela está melhor, anestesiada. Não sabemos quando vamos poder vê-la. Não sabemos de nada. A família está muito abalada, só nos resta rezar — contou ontem, por telefone, Elizaldo Severino de Sousa Junior, de 26 anos, namorado de Larisse que a acompanhava na praia.

À espera de vaga em UTI

Os dois têm muito em comum. Eles se conheceram na PUC, onde Elizaldo cursa Engenharia Mecânica. Ambos são católicos e frequentam a Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, em Inhaúma. Muito religiosa, ela foi, no carnaval do ano passado, para um retiro espiritual. “Todos nós precisamos cuidar do corpo e também da alma”, escreveu no Facebook, Larisse, que costuma usar um cordão com crucifixo de madeira. Ela participa de um grupo jovem e faz serviço voluntário, assim como Elizaldo. Uma característica de Larisse é se engajar em projetos coletivos. No fim do ano passado, ela foi guia da delegação da Letônia, durante a Olimpíada Internacional de Matemática.

O que aconteceu ontem foi muito assustador e rápido, segundo Elizaldo. Os dois estavam na altura do Posto 8, na Praia da Reserva, quando teve início uma correria, por volta das 9h20m. Num primeiro momento, os banhistas imaginaram se tratar de um arrastão e correram para o calçadão. Foi quando ouviram um tiro e muitos se jogaram no chão. Inclusive Elizaldo. Ele se levantou; Larisse, não. Foi quando ele notou que a namorada tinha sido baleada.

— Achamos que era um arrastão. Não dava para ver o que acontecia direito. Foi muito rápido. Só depois percebi que a Larisse estava baleada — disse.

Larisse com o namorado, Elizaldo, na praia em outra ocasião – Reprodução

Eram dois assaltantes, de acordo com testemunhas. Eles estacionaram a motocicleta e seguiram para a areia onde abordaram o policial à paisana, arrancando um cordão de seu pescoço. Com a família por perto, ele não esboçou reação até os criminosos se afastarem. O PM, então, começou a correr atrás deles. Mas diz que não atirou. Foram os assaltantes, segundo ele, que, percebendo sua aproximação, dispararam em sua direção, atingindo Larisse.

— Eu achei que era uma arma de brinquedo porque estava meio descascada. Tentaram levar também a bolsa da minha mãe, que começou a gritar — relatou o PM que não quis se identificar ao “G1”.

A estudante foi levada para o Hospital Municipal Lourenço Jorge, onde passou por uma cirurgia para a retirada da bala que ficou alojada em seu abdômen. O estado de saúde da estudante é grave. Na noite de ontem, ela ainda estava no centro cirúrgico à espera de uma vaga na UTI da unidade. O drama de Larisse acontece num momento em que ela comemorava uma vitória. Após três tentativas, conseguiu ser aceita para fazer parte do seleto grupo de 1.600 estudantes em todo o país que recebem bolsa da organização Ismart, voltada para alunos de baixa renda. No esforço para manter seus estudos, também vende doces, tendo criado a “El dulce”, no fim de 2016: palha italiana, brigadeiro, brownie e bolo de chocolate que são vendidos na PUC. Em sua página no Facebook, há fotos dela de avental confeccionando os docinhos. Na página, ela brinca com eventuais clientes, seus colegas de universidade. “Para quem não me conhece, estou sempre carregando uma bolsa térmica vermelha”. Para ficar mais perto da PUC, no início do ano passado, ela alugou um apartamento no bairro.

Hoje, assistentes sociais e médicos da PUC devem visitá-la no hospital.

O professor José Marcus Godoy — do Departamento de Química e coordenador do Laboratório de Caracterização de Águas (Labaguas), onde Larissa pesquisa com bolsa de iniciação científica — contou qual é o atual projeto da estudante:

— Ela desenvolve estudos sobre meios de atestar a pureza de sucos de uva para evitar adulterações. Na semana passada, estava empolgada com a decisão de trocar de curso.

Quando deixar o hospital, Larisse quer mudar seu curso para Engenharia de Produção.

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