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Editorial: Crianas vtimas da fome e da obesidade

De um lado, a fome. Do outro, a obesidade. Estudo divulgado anteontem, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), constata que o número de crianças obesas foi multiplicado por dez, nos últimos 40 anos. Os mais atingidos são os países em desenvolvimento.
Há uma trágica encruzilhada nesse resultado. Ele mostra que o planeta sofre com uma crise de desnutrição marcada pela falta de acesso a comida e ao mesmo tempo com o consumo de alimentos poucos saudáveis (processados). Caso não aconteça algo que reverta o quadro, estas duas ondas vão cruzar-se em 2022, e uma vai superar a outra: o estudo da OMS calcula que, neste ano, a tendência é que tenhamos mais crianças e jovens (de cinco a 19 anos) vítimas de obesidade do que desnutridos. Hoje o total de jovens e crianças nesta condição chega a 124 milhões.

O resultado desses dois problemas é doença e morte. No caso dos desnutridos, a morte chega mais rápido: pelo menos três milhões de crianças morrem por este motivo, anualmente. Já no caso da obesidade, o desfecho é mais demorado, embora igualmente destruidor: ela causa uma série de doenças, como o câncer, a diabetes e problemas cardiovasculares. A OMS defende que o problema seja enfrentado com vigor pelos governos, sob risco de ver ameaçada “a saúde de milhões de pessoas, o que elevará os custos humanos e econômicos”, conforme explicação de Leanne Riley, especialista da instituição e coautora do trabalho.

Outro especialista, Majid Ezzati, que também participou do estudo, criticou em entrevista ao El País o fato de haver no mundo “poucas políticas e programas dedicados a facilitar o acesso a comidas saudáveis como os grãos integrais, frutas e vegetais para famílias pobres”. Segundo ele, “a impossibilidade de comprar comida saudável pode levar à desigualdade social e à obesidade”.

Nos países mais pobres, o problema atinge diretamente as crianças e jovens com o acesso a uma dieta de poucos nutrientes e a alimentos e bebidas (processados) com alto teor de açúcar, sal e gordura. No países mais ricos o problema se apresenta em menor escala, mas os especialistas suspeitam que exista aí uma realidade camuflada: a parcela mais rica desses países estaria protegida contra a situação, mas os mais pobres, não.

Fora os dados em si, há outro aspecto doloroso a constatar nesse estudo da OMS: a realidade nele descrita já ocupava lugar de destaque em obras dos anos 1940 e 1950 (Geografia da Fome, sobre o Brasil, e Geopolítica da fome, sobre o mundo) do grande cientista social pernambucano Josué de Castro. Cerca de sete décadas depois, o mundo ainda tem milhões de crianças e jovens que sofrem e morrem por causa da má alimentação ou pela ausência dela.

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