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É possível separar a obra da vida do autor?

RIO e LOS ANGELES – Como faz todo ano, Manoela Miklos foi conferir o último filme de Woody Allen. Era domingo passado e, ao sair de “Roda gigante”, ela se deu conta do desconforto. Se em outras ocasiões o histórico do cineasta com mulheres podia ser esquecido, desta vez, ela diz, o olhar “antigo e moralista” para as personagens gritava na tela. “Eu não conseguia pensar naquilo sozinha”, lembra a ativista do coletivo feminista Agora É Que São Elas. Na hora, Manoela postou no Facebook um pedido irônico e sincero: “Gostaria de acionar vocês do departamento de problematização on-line e pedir encarecidamente pra botar na lista de prioridades o novo Woody Allen.”

Seguiram-se dezenas de curtidas e comentários de gente às voltas com a mesma questão: como lidar com a obra de artistas cuja postura condenamos? Podemos separar criador e criação? Devemos? O debate é complexo, sem respostas prontas — e fundamental num momento em que o meio cultural é sacudido por denúncias que mancham biografias e inquietam fãs.

Diante das múltiplas denúncias contra nomes como Bill Cosby, Harvey Weinstein e Kevin Spacey, a vida — e também a obra — de Allen foi parar na berlinda. E, enquanto atrizes de Hollywood se vestem de luto para protestar, há quem proponha que trabalhos passados ganhem novas versões e até quem fale em boicotar lançamentos.

— É muito fácil escrever “eu odiei, não veja, boicote”. Mas precisamos ter discussões mais interessantes — diz Manoela. — Prefiro ver “Roda gigante” e concluir que é uma obra desconectada do espírito do tempo, desatualizada. Não há nada de novo sobre Woody Allen, mas há muitas coisas novas no mundo.

Nos anos 1990, Allen era casado com Mia Farrow quando virou manchete ao trocar a mulher pela jovem Soon-Yi Previn, filha adotiva da atriz. A carreira do diretor, porém, passou ao largo do escândalo pessoal. E o cinema seguiu em frente. Anos depois, Dylan Farrow, filha adotiva de Mia e do próprio Allen, veio a público acusar o pai de ter abusado sexualmente dela quando tinha 7 anos. O diretor negou, a história não foi comprovada, e o cinema, mais uma vez, seguiu em frente.

Corte para 2017: Ronan Farrow, outro filho de Mia, publica na revista “New Yorker” a reportagem que desmascara Weinstein. Ronan aproveita os holofotes para corroborar as acusações da irmã, levando o caso Allen ao tribunal das redes sociais.

Medir a trajetória artística pelos tropeços pessoais, no entanto, está longe de ser consenso. O escritor Ruy Castro, por exemplo, desconfia dessa limpeza ética. Biógrafo de homens nada santos, como Garrincha e Nelson Rodrigues — e fã de Woody Allen —, ele diz que nenhuma obra pode ser julgada pelo “certificado de bons antecedentes” do autor:

— Um artista sem defeitos deve ser chatíssimo na vida real e só por acaso poderá produzir algo relevante. É possível citar cem grandes nomes com graves defeitos de caráter ou comportamento. Talvez, sem esses defeitos, eles não fossem quem eram. Donde, com todo respeito, é possível, sim, fazer merda e fazer grandes maravilhas.

GÊNIO E MONSTRO

Na teoria literária, há duas visões opostas para o dilema autor vs. obra. A primeira, abraçada por formalistas russos e estruturalistas franceses e dominante durante quase todo o século XX, diz que a pessoa civil e o narrador de uma obra são duas entidades diferentes. Nas décadas seguintes, ganhou espaço a perspectiva dos chamados “estudos culturais”, defendendo que toda obra é indissociável de um lugar de fala, ou seja, está vinculada ao autor e sua classe, gênero, raça, país e atuação política.

Como lembra o filósofo e escritor Francisco Bosco, os dois pontos de vista são “simétricos e complementares”.

— A biografia e a posição de um autor sempre se manifestam em sua obra, de alguma maneira. O problema é pensar essa “maneira” de forma simplista. Tentar explicar o sentido de uma obra pela vida do autor e vice-versa há muito tempo se revelou um mau caminho crítico. E agora pode se revelar um perigoso precedente político — diz Bosco, autor do livro “A vítima tem sempre razão?”, uma análise das lutas identitárias. — Neste momento, me parece importante debater a tendência de se reduzir as pessoas a um traço, uma falta, ou mesmo uma suspeita. Reduz-se a pessoa, e logo reduz-se sua obra a esse mesmo traço, pelo qual ela mereceria ser sumariamente descartada.

Há dois anos, quando revisitou a produção cultural dos anos 1960 e 1970 para a construção de seu segundo livro, o best-seller “Love and trouble” (“Amor e confusão”, em tradução livre), a memorialista americana Claire Dederer se deparou com questão aparentemente insolúvel. Como podia considerar a filmografia de Roman Polanski exemplar ao mesmo tempo em que enxergava um monstro no diretor, condenado por fazer sexo com uma menor de idade nos anos 1970? O aparente paradoxo se tornou o mote de seu terceiro livro, ainda não finalizado, mas com trecho publicado pela “Paris Review” no fim do ano passado.

— Ao passear pela linha que separa o gênio do monstro, percebi que os limites são pessoais, regidos por sentimentos morais de cada um e não por um código de ética estabelecido pela sociedade, lugar da Justiça — diz Claire.

Curiosamente, a escritora se deu conta de que “Manhattan” (1979), um dos clássicos de Woody Allen, não passa por sua peneira pessoal. Após ouvir a história de uma amiga, que descobriu livros do diretor (ou escritos sobre ele) escondidos na despensa de uma biblioteca pública, ela decidiu rever o filme em que o alter ego de Allen namora uma adolescente.

— Eu queria ser o espectador imune à História, aos fatos. Mas não há senso estético que me faça voltar a pensar nesse filme como obra-prima após tudo o que se sabe da vida pessoal de Allen — reconhece Claire. — Em “Manhattan”, ele objetifica a mulher de uma forma gritante. O que me impede de seguir apreciando essa obra, descobri, é a explícita ausência de humanismo.

No processo, Claire se deparou com outro problema: consumo cultural. Ela explica:

— Posso falar de questões filosóficas o quanto quiser, mas a questão é: se nosso consumo cultural dá lucro a esses acusados, dá fôlego às suas carreiras, somos cúmplices? Aí a coisa complica, porque estamos tratando de arte. Se eu achar a solução para essa equação, prometo ligar primeiro para vocês contando a descoberta.

Alguns autores que tiveram a obra posta em xeque por sua conduta pessoal:

Louis-Ferdinand Céline: Autor da obra-prima “Viagem ao fim da noite” (1932), o francês também escreveu textos que atacavam negros, gays e judeus. Uma nova edição desses escritos, prevista para 2018 pela Gallimard, foi cancelada após pressões.

Monteiro lobato: Criador do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, o autor paulista foi alvo de intensas críticas pelo romance infantil “O saci”, em que o personagem-título e a negra Tia Nastácia são retratados de forma preconceituosa.

Roman Polanski: O cineasta é foragido da Justiça americana desde 1978, quando foi condenado por fazer sexo com uma adolescente de 13 anos. Mais três mulheres o acusam de assediá-las quando eram adolescentes. Hoje, vive na Suíça, segue com a carreira, mas vem sofrendo boicotes. Há pressões para que seja extraditado.

Arthur Miller: O dramaturgo americano escondeu Daniel, seu filho com síndrome de Down, que viveu internado numa instituição. A existência de Daniel só foi comprovada por reportagem da “Vanity Fair”, em 2006.

Lewis Carroll: O escritor inglês conheceu a musa inspiradora de seu livro mais famoso, “Alice no País das Maravilhas” (1865), quando ela era uma menina. Carroll a fotografou em roupas curtas e, segundo biógrafos, pediu-a em casamento quando ela tinha 11 anos. Não faltam acusações retroativas de pedofilia.

Woody Allen: O O cineasta trocou Mia Farrow por uma filha adotiva dela, Soon-Yi Previn — romance que teria começado quando ela era adolescente. Depois, Dylan Farrow, filha adotiva de Mia e do próprio Allen, acusou-o de abuso sexual quando ela era criança.

Iberê Camargo: Em 1980, em Botafogo, o pintor gaúcho se envolveu na briga de um casal e matou o homem a tiros. Foi absolvido por legítima defesa. Em resposta, colecionadores chegaram a devolver obras dele. Anos depois, Iberê voltou para Porto Alegre. Morreu em 1994.

Marion Zimmer Bradley: A popularidade da autora do clássico “As brumas de Avalon” foi abalada depois que, em 2014, duas de suas filhas a acusaram de molestá-las na infância. Tudo teria ocorrido com a conivência do pai, pedófilo condenado, que morreu na prisão em 1993. Bradley faleceu em 1999, na Califórnia.

Richard Wagner: Compositor de músicas inesquecíveis, como “Cavalgada das Valquírias”, Wagner era um notório antissemita, conforme escreveu no ensaio “Judaísmo na música”. Adorado por nazistas, o alemão tem a obra questionada por suas ideias.

Louis C.K.: Em novembro de 2017, no “New York Times”, cinco mulheres relataram assédios do humorista americano — três diziam que ele se masturbou diante delas. C.K. confirmou as histórias e está recluso desde então.

Luigi Pirandello: O escritor e dramaturgo italiano foi um defensor público do regime fascista de Mussolini. Chegou a doar a medalha que recebeu como parte do Prêmio Nobel de Literatura em 1934 para que ela fosse usada em benefício da causa.

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