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Delação de Lúcio Funaro aponta para ligação estreita entre Cabral e Salada

Em um restaurante em Paris, Georges Sadala dança com Sérgio Cabral (à esquerda) e puxa trenzinho com os então secretários Sérgio Côrtes e Wilson Carlos
– Agência O Globo

RIO — A delação premiada do doleiro Lúcio Funaro, o operador financeiro do ex-deputado Eduardo Cunha, forneceu aos investigadores da Lava-Jato a pista que faltava para entender a relevância do empresário mineiro Georges Sadala Rihan, o “Gê”, no esquema comandado pelo ex-governador Sérgio Cabral. De acordo com o delator, Gê foi um dos favorecidos com o rombo milionário na Prece, o fundo de pensão dos funcionários da Cedae, na gestão de Cabral (2007-2014).

Até então, o sinal mais concreto da influência de Sadala no esquema Cabral era a foto em que ele aparece de guardanapo na cabeça, ao lado de outros parceiros do ex-governador, no episódio em Paris que ficou conhecido como “dança dos guardanapos”.

Gê, além de amigo do ex-governador, aparece em pelo menos dois negócios com o governo Cabral: o serviço “Poupa tempo”, explorado pela GelPar, da qual era um dos sócios, e o sistema de crédito consignado aos funcionários públicos, na condição de representante do banco BMG.

No termo de depoimento de número 8 do Apenso 23 da delação, Funaro cita o nome de Sadala como um dos operadores que entraram no esquema de montar operações fraudulentas contra os fundos de previdência complementar (Prece e Postalis, dos funcionários dos Correios) dos quais participavam, de acordo com sua colaboração, o ex-deputado Eduardo Cunha e os ex-governadores Rosinha e Anthony Garotinho na divisão de propinas.

Frequentador da pizza da casa de Cabral no condomínio Portobello, em Mangaratiba, onde também tinha casa, Sadala usou de sua amizade com o ex-governador para abocanhar negócios com interlocutores e secretarias do governo estadual. Obtidas com um fotógrafo que cobriu a festa na França, fotos exclusivas da festa dos guardanapos no Champs-Elysées, logo após Cabral receber a Medalha Légion d’Honneur do governo francês, revelam na pista de dança o grau de intimidade entre os dois.

Sadala se somou ao grupo de Cabral a partir da campanha de 2006, também por meio do ex-secretário de governo Wilson Carlos, e era reverenciado pela maneira leal com que se relacionava com o ex- governador. Sadala conheceu Wilson por intermédio do tio, que participava de uma roda de pôquer semanal, com o ex-secretário, na Barra da Tijuca. Com os negócios do grupo indo de vento em popa, Sadala foi habitué de viagens feitas por Cabral ao exterior. Gabava-se de ser o único proprietário do grupo a ter uma casa que ocupava dois lotes de terreno de frente para o mar na Praia de São Braz, no Condomínio Portobello.

A amizade entre Sadala e Cabral também aproximou suas mulheres, a advogada paranaense Ana Paula Campos, e a então primeira-dama Adriana Ancelmo, respectivamente. Elas aparecem sorridentes no dia da festança em Paris — oferecida por um empresário português que tinha interesses no mercado de saneamento do Rio —, mostrando a sola dos sapatos Christian Louboutin, após a animada noite puxada pelo “trenzinho” liderado pelo empresário na companhia dos ex-secretários Sérgio Côrtes e Wilson Carlos.

Em Paris, Georges Sadala puxa trenzinho com Sérgio Côrtes e Wilson Carlos em restaurante
– Reprodução

Na campanha de 2006, Sadala proporcionou a Cabral um serviço de correios privado para entrega de material publicitário que ajudou a consolidar a imagem de “político austero” do então candidato ao Palácio das Laranjeiras.

A relação de amizade com políticos se estende ainda ao senador Aécio Neves (PSDB-MG), padrinho de casamento de Sadala com Ana Paula Campos — em dezembro de 2007, na Igreja da Candelária —, com sua ex- mulher Adriana Falcão.

Além da concessão do Poupa Tempo do Rio, o empresário também obteve a de Minas, e ainda comandou a Lavoro, empresa de factory que comprava dívidas que as empreiteiras tinham a receber do governo. Foi com a Lavoro que, de acordo com Funaro, Sadala operou investimentos que resultaram em prejuízo para Prece. Procurado, Sadala não foi localizado.

APARTAMENTO E FERRARI EM MIAMI

Após a eleição de Sérgio Cabral ao governo do Rio, Georges Sadala atuou como uma espécie de lobista junto a empresários que tinham interesses em parceria com o estado. No Rio, Sadala mora no badalado edifício Cap Ferrat, num luxuoso apartamento na Avenida Vieira Souto, em Ipanema. Também costumava ser visto em sua Ferrari vermelha nas ruas de Miami, onde tem um apartamento. Ambos decorados pelo arquiteto Roberto Migotto. Além de colecionar carros, um dos hobbies de Sadala é navegar. Ele chegou até a ter uma lancha de 60 pés.

Da lista de moradores da “República de Mangaratiba”, hoje quase todos presos, Sadala é o único que não foi alvo da força-tarefa da Operação Calicute, versão da Lava-Jato no Rio. Do grupo, estão presos além de Cabral, os ex-secretários Sérgio Côrtes (Saúde) e Wilson Carlos (Governo) e os empresários Marco Antônio de Luca, dono da Masan Alimentos, Benedicto Junior, ex-vice-presidente da Odebrecht, e Fernando Cavendinsh, da Delta Construções. O empresário Arthur Soares de Menezes Filho, o “Rei Arthur”, é considerado foragido pela Polícia Federal e seu nome está na difusão vermelha da Interpol.

Ao cruzar as acusações de Funaro com a presença de Sadala nas viagens de Cabral e seus secretários, não é difícil imaginar que em breve o empresário pode ser procurado para prestar contas com a Justiça.

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