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De maio de 1968 a maio de 2018, muita coisa mudou. Menos a vontade da esquerda de nos enviar para o século XIX

Enquanto os jornais e tevês brasileiros romantizam o aniversário de 50 anos de maio de 1968 em Paris, eu vou dizer o que está ocorrendo neste maio de 2018 na França — mais precisamente, na Universidade de Nanterre, onde nasceu a revolta estudantil que ainda acelera os coraçõezinhos revolucionários.

Para reviver maio de 1968, um grupelho esquerdista tomou a universidade e declarou que a instituição estava em greve. O pretexto é a modernização do sistema de ensino levada a cabo pelo presidente Emmanuel Macron. O governo quer simplificar e racionalizar o acesso às universidades públicas francesas. O grupelho esquerdista, claro, é contra.

Em Paris, Lyon, Nantes, Montpellier e Grenoble, entre outras cidades, universidades foram tomadas por grupelhos semelhantes. A polícia desajolou os invasores de Tolbiac (Paris 1), mas o reitor de Nanterre acovardou-se por causa do simbolismo adquirido em 1968. Em nome da autonomia universitária, deixa a moçada deitar e rolar — apesar de a maioria dos estudantes ser contra a ocupação.

O grupelho em Nanterre conta com o apoio de sindicalistas ferroviários e, a partir de hoje, de sindicalistas carteiros. Os ferroviários entraram na história porque fazem de tudo para manter privilégios que datam da época em que as locomotivas eram movidas a carvão, enquanto Macron tenta impedir que tais privilégios sejam concedidos aos futuros funcionários da estatal de trens. Há mais de um mês, essa gente vem transformando a vida dos passageiros num inferno, intercalando dias de funcionamento com dias de paralisação.

Quanto aos carteiros, eles querem que os franceses continuem a mandar cartas em papel para resolver toda e qualquer questão burocrática. Basicamente são contra a internet e a privatização da entrega de pacotes, que possibilitaria a livre concorrência e o barateamento do serviço.  Anteviram no fechamento de agências supérfluas um movimento do governo nessa direção e forçaram uma greve. Discursam em prol do serviço público, mas a intenção é perpetuar as mamatas de que gozam numa estatal que pesa no bolso dos pagadores de impostos e não consegue nem mesmo manter máquinas de xerox em funcionamento (na agência perto da minha casa, a máquina está quebrada há quatro anos).

Essa vanguarda do ranço juntou-se ao grupelho que barbariza na Universidade de Nanterre. Com  o ano letivo terminando, milhares de alunos estão impedidos de fazer as provas finais e correm o risco de atrasar os seus respectivos cursos. Se nada for feito, muitos deles passarão o próximo ano sem estudar. É o caso da minha enteada. Ela está no quarto ano da faculdade de Direito. Precisa fazer as provas urgentemente, porque são pré-requisito obrigatório para tentar uma vaga em criminologia na Sorbonne — na França, os últimos anos dos cursos universitários são de especialização e você nem sempre tem a opção de especializar-se na universidade onde começou a estudar. A Sorbonne não adiou o prazo de inscrição para a seleção e, assim, a minha enteada corre o risco de perder um ano da sua vida escolar — o que atrasará o início da sua carreira.

Até hoje de manhã, havia a esperança de que os alunos de Nanterre pudessem fazer as provas finais em Tolbiac. Mas o grupelho esquerdista, os ferroviários e os carteiros avisaram que irão bloquear a entrada do campus da universidade desocupada pela polícia e impedir a realização das provas.

De maio de 1968 a maio de 2018, muita coisa mudou na França e no mundo, menos a disposição da esquerda de atrasar o relógio das sociedades para o século XIX. E o cidadão comum que pague com a sua própria libra de carne o almoço grátis que essa gente insiste em ter.

 

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