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‘Controvérsia e (muito) talento num carnaval que honra a civilização carioca’ – Carnavalesco

Por Aydano André Motta

beija-flor_desfile_2018_103-11Está longe de ser trivial o arrastão que se formou na esteira do desfile da Beija-Flor, ao fim do desfile de 2018 na Sapucaí. A impressionante multidão foliã, que foi atrás da escola e cantou o samba do “Ganância veste terno e gravata” à capela, mesmo depois de a bateria silenciar, transformou a apresentação na mais importante do ano, por construir apoteose que entra para a história da festa. Goste-se ou não do desfile, há que se prestar atenção.

O sarapatel de críticas às mazelas sociais abarcou correntes diversas, ao tratar de racismo e homofobia, machismo e poluição ambiental – agendas da esquerda –, de carga tributária e corrupção – temas que a saga política associou à direita. No meio, a violência, que mobiliza todas as 43568 correntes ideológicas. No fundamental aspecto estético, a azul e branco fracassou. Nos essenciais samba e evolução, brilhou intensamente.

A crítica – o autor incluído – reprovou a apresentação nilopolitana, pelo desprezo ao acabamento de alegorias e à qualidade das fantasias, que se desmancharam avenida afora. O carro que representava a sede da Petrobras para falar de corrupção parecia inacabado, na madeira; boa parte das encenações causava incômodo, e não o alegre prazer do carnaval. (E teve black face, imperdoável ícone racista.) Assim, o título tornou-se improvável – no mínimo.

beija-flor_desfile_2018_103-6A folia surgiu vigorosa com o samba, turbinado pela espetacular apresentação da mítica comunidade da escola. Contou ainda com mais um desempenho monumental de Neguinho da Beija-Flor, o Frank Sinatra carnavalesco que domina a magia da Passarela como ninguém, e a dança mágica de Selminha e Claudinho, impecáveis na condução do pavilhão. As estrelas da escola foram alicerces da catarse que referenda a aposta da Beija-Flor. Aqui, Carnaval do mais puro.

Mas e o distinto público? Vivemos a angústia do afastamento das pessoas do mundo das escolas; lamentamos ano sim, ano também a frieza da plateia do Sambódromo; reivindicamos enredos e desfiles que mobilizem a assistência. A Deusa da Passarela ostenta o mérito de ter conseguido. Ninguém ficou indiferente a ela em 2018 – o que não é pouca coisa.

(Resta saber para onde vai o projeto iniciado com a ascenção de Gabriel David ao poder da escola, que deu no desfile controverso. Se os preceitos que sustentam a magia nilopolitana serão respeitados e valorizados. Mas aí é assunto para muitos carnavais).

salgueiro_desfile_2018_26Até o título, caminho mais curto parece ser o do Salgueiro. A vermelho e branco tijucana bateu um bolão em todos os fundamentos, dentro do enredo “Senhoras do ventre do mundo”, credenciando-se à disputa com a Mangueira. Seu elenco estelar de sambistas esteve inspirado, a começar por Sidclei e Marcella Alves, casal de mestre-sala e porta-bandeira com sua dança próxima da perfeição.

A estreia do carnavalesco Alex de Souza na escola mostrou um artista maduro, pronto para integrar o primeiro time da folia. Ele foi brilhante na escolha das cores e, especialmente, no carro da Pietá negra, o último, com linda homenagem à escritora Carolina Maria de Jesus.

Pecados, poucos: o samba não esteve no nível do restante; e o abre-alas passou com duas esculturas de girafas quebradas. A lamentar verdadeiramente, algo que o júri não vai punir, mas deveria: o Salgueiro também usou o indesculpável black face, ao menos na bateria e na comissão de frente. Agora deu para faltar negro no Carnaval?

portela_desfile_2018_91-5No campeonato particular das duas campeãs, a Portela ganhou com facilidade. O estilo sempre inteligente da professora Rosa Magalhães mudou a cara da azul e branco de Madureira e Oswaldo Cruz, proporcionando ótimo desfile. Os componentes – “chão” que está entre os melhores da folia carioca – cantaram o samba como se não houvesse amanhã, sob a condução do excelente Gilsinho. Algumas fantasias e a última alegoria da Estátua da Liberdade ficaram mais pobres e terminaram como os grandes pecados da escola que tem vaga certa para o Sábado das Campeãs.

A Imperatriz também pode alimentar o sonho da volta. O samba excelente e o enredo desenvolvido com talento por Cahe Rodrigues sustentaram desfile alegre da verde e branco. A escola, aliás, proporcionou um dos momentos mais emocionantes do ano, ao apresentar Chiquinho e Maria Helena, lendário casal de mestre-sala e porta-bandeira, como reis na comissão de frente. Simplesmente arrebatador!

Como o canto e o ritmo da União da Ilha, escola que tem Ito Melodia e a bateria do Mestre Ciça entre os encantos fundamentais da nossa festa popular. Em 2018, o cantor esteve novamente inspirado em seu estilo elétrico. A orquestra tricolor tirou o público da cadeira com paradinhas e um estilo vigoroso na condução do samba. O trabalho de alegorias e fantasias esteve um degrau abaixo, mas nada que impeça a Ilha de permanecer na elite do samba.

Será assim também para Unidos da Tijuca e seu Carnaval da reconstrução. O desfile-homenagem a Miguel Falabella deixou evidente que o aperto nos recursos foi sentido pelos lados do Borel. Mas a escola ostentou os destaques de sempre: a bateria perfeita de Mestre Casagrande (com a beleza opulenta de Juliana Alves à frente) e Tinga, o ótimo puxador.

Entre dores e delícias dos bambas de todas as escolas, fica a lembrança de um carnaval inesquecível. Viva a civilização carioca!

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