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CBN – Polícia – Após 15 anos, morte de Tim Lopes não muda o cenário de violência em comunidades do Rio


SEXTA, 02/06/2017, 06:00

Os índices de homicídio e letalidade violenta registrados pela delegacia da região nos primeiros quatro meses deste ano são os mesmos da época do crime.

Morte do jornalista Tim Lopes completa dez anos (Crédito: reprodução site Tim Lopes)

Morte do jornalista Tim Lopes completa dez anos

Crédito: reprodução site Tim Lopes

Frederico Goulart

Quinze anos após o jornalista Tim Lopes ser torturado e assassinado enquanto investigava o consumo de drogas e o abuso de menores num baile funk, no Rio, a violência  denunciada em suas reportagens está cada vez mais atual. No Complexo da Penha, o mesmo local onde o repórter foi capturado a mando de facções criminosas, os índices de letalidade violenta registrados pela delegacia da região na época são semelhantes aos de hoje. Enquanto nos quatro primeiros meses de 2003 foram 32 homicídios, no mesmo período deste ano foram 31.  Os dados ganham tom de desespero no desabafo dos moradores, como o de Lourival Virgílio, vice-presidente da Associação de Moradores da Favela da Grota – a mesma onde Tim teve o corpo esquartejado e queimado: 

“Piorou. Mudou para pior. Toda hora morre um morador, uma criança, um trabalhador”, disse.

Em 2012, 10 anos após o crime, o estado inaugurou a UPP do Alemão, que prometia dias de paz para o conjunto de favelas das comunidades do entorno, entre elas a Favela da Grota. Em 2014, a região ganhou uma delegacia específica que, nos primeiros quatro meses daquele ano, registrou apenas um caso de homicídio. No mesmo período de 2017, foram sete. Para o jornalista Bruno Quintella, filho de Tim, nesses 15 anos, o Rio perdeu a oportunidade de dar uma resposta mais efetiva, especialmente para que convive com essa violência.

“Aquela região do Alemão há 15 anos já pedia socorro. Era uma ferida que estava ali escondida. E o Tim foi lá para denunciar que no Complexo da Penha e o Complexo do Alemão, existia sim uma outra realidade que para outras pessoas aquilo ali era muito distante. Eu acho que hoje em dia está pior porque já teve uma herança. A gente já sabe como era e mesmo assim a gente não fez nada para mudar”, observa. 

Para Bruno, a permanência da opressão do tráfico de drogas sobre moradores é uma catástrofe. Mas a voz ativa que os excluídos passaram a ter foi um avanço, antes tão sonhado por Tim.

“A morte dele foi uma denúncia, foi uma ferida que a sociedade teve que prestar mais atenção para aquilo não se transformar numa catástrofe, que é o que está acontecendo hoje.  A única diferença é que nesses 15 anos, as comunidades produziram vozes independentes coletivos, e a própria juventude dessas favelas está começando a ter voz própria. Esse era o grande sonho do Tim”, aponta.

Em resposta às criticas, o comando Comando da Polícia Militar disse que está reformulando o plano estratégico nos Complexos do Alemão e Penha. Está em estudo, inclusive, a instalação de outras bases avançadas. Para o chefe da Divisão de Homicídio, Rivaldo Barbosa, a situação de hoje não é a ideal – diante da crise atual na Segurança Pública. Mas ele não minimiza alguns avanços trazidos pelas UPP´s.

“Na minha época de polícia que tinha que fazer local de homicídio lá dentro, a gente nunca fez. Com a entrada da UPP, hoje, pelo menos a gente faz. Se tiver um homicídio ali, a mesma quantidade de pessoas que vai na zona sul vai ali”, diz.

Outro cenário pouco alterado diz respeito à segurança da imprensa. Um levantamento feito pela ONG Repórteres Sem Fronteiras em 2016 mostrou que o Brasil fechou o ano como o quarto onde mais jornalistas foram mortos. Na avaliação de Antônio de Moura Reis, diretor da ABI, Associação Brasileira de Imprensa, os repórteres brasileiros ainda são obrigados a trabalhar diariamente em um crime de guerra.

“O Brasil continua um dos países mais perigosos para o trabalho de jornalistas. Ele continua sendo um alvo. E lamentavelmente Às vezes da polícia, também. E de manifestantes. É uma coisa preocupante, porque não é normal. O Brasil não é um país em guerra”, alerta.

A morte de Tim Lopes completa 15 anos com seis dos sete condenados ainda presos. Entre eles, Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, o chefe da quadrilha. Considerado um dos traficantes mais perigosos do Rio, ele cumpre pena no Presídio Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Fernando Satyro da Silva cumpre pena em casa, após ser transferido para o regime aberto; e Claudino dos Santos Coelho foi morto em 2013 em um confronto com a polícia.

 

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