You are here

artistas falam sobre o papel da literatura na resposta ao HIV – Agência AIDS

Tente Entender o Que Tento Dizer é o título da coletânea de poemas em torno do tema HIV/aids, organizado pelo poeta Ramon Nunes Mello. O lançamento da obra aconteceu após um bate-papo na tarde dessa quarta-feira (16), durante a mostra Arte e Diversidade Todos os Gêneros no Itaú Cultural, em São Paulo. São 96 poetas reunidos para falar sobre o vírus e suas diferentes perspectivas.

Segundo Ramón, o livro nasceu de uma inquietação em relação a linguagem que funciona como um verdadeiro vírus. “Há uma corrente de solidariedade, de afeto e amor, apesar do preconceito e estigma. Esse livro resume uma corrente de solidariedade. A verdadeira cura da aids é o combate ao preconceito. Aqui a gente combate o estigma através da linguagem, seja na escola, em casa, nos livros, na arte, no cinema, na performance, no teatro. É importante tratar das formas de expressão sobre HIV na vida, no cotidiano e na arte.”

“Quando peguei o diagnóstico em 2012, essas questões eram muito latentes. A primeira coisa que pensei foi ‘quero escrever sobre’.”, conta Ramon sobre a época em que começou a escrever poemas que “continham vírus nos versos”.

Em sua fala, o organizador da obra também ressaltou a questão do genocídio da população negra com aids, e disse que o vírus é uma questão que envolve a humanidade. “As pessoas conhecem algum familiar, amigo que tem o vírus, ou tiveram uma relação com alguém que revelou ser infectado. O livro perpassa por essas histórias.”

Literatura Pós-Coquetel

Ramón explica que o fato de as pessoas não morrerem mais como acontecia no início da epidemia, graças ao tratamento antirretroviral, fez com que escritores e poetas começassem a escrever não mais sobre morte, mas sobre a aids com uma perspectiva diferente de vida. Daí o nome para o divisor de águas: literatura pós-coquetel.

Alexandre Nunes de Sousa, responsável pela expressão, fez um resgate histórico colocando como essas questões tem sido retratadas. “A memória da aids e a produção discursiva sobre a doença também sofre influência de questões geopolíticas. Há menos acesso a essas estruturas nos países pobres, por exemplo. Além disso, trata-se de uma epidemia discursiva, onde o jornalismo tem papel fundamental para construir e a arte sempre atuou como um contra-discurso em relação ao que a mídia colocava sobre o que era HIV/aids”, explica.

“Na era pós-coquetel, é um desafio atravessar questões da vulnerabilidade de imigrantes, negros, trans. O livro trata inclusive de PrEP e PEP e tem o mérito de ser pioneiro em trazer essa temática novamente”, completa. Além disso, a publicação traz poetas como Kesley Rocha, por exemplo, um dos poucos poetas que tratam o HIV dentro do sistema penitenciário.

Literatura como referência

A poetiza transexual Amara Moira falou a respeito dos momentos antes e pós literatura sobre LGBT e aids. “Minha forma de viver, de descobrir minha sexualidade era carregada de estigma. Era fingir que ia dormir e sair à pé, escondido para uma balada LGBT, ter relações sexuais sem estabelecer vínculos porque não conseguia me aceitar como parte dessa sigla. Eu me sentia como se quisesse contrair HIV para não transar com mais ninguém na vida. Os centros de referência em testagem e tratamento eram os únicos lugares onde eu poderia falar sobre o assunto, mas os profissionais eram despreparados”, desabafa. 

Amara conta que estar em bate-papo na internet, nos banheirões, em dark rooms, era a maneira que ela enxergava de participar do universo LGBT e do HIV/aids. Para ela, essa realidades só se transformou quando ingressou na universidade e começou a consumir literatura sobre os temas.

No entanto, a poetiza reforça que ainda há muito o que dizer sobre HIV. “As coisas que a gente vive, ouve, enfrenta. Tudo isso ainda não está nas palavras. Ainda falta uma literatura que fale e enfrente isso. As abordagens possíveis são diversas e infinitas.”

Quanto à resposta ao HIV, Ramon evidenciou a importância do papel da imprensa e das ONGs. “Temos que agradecer aos ativistas que vieram antes, que lutaram, pensaram e fizeram políticas públicas. A resposta da literatura pode ser mais efetiva, mas ela tem que dar mais perguntas do que respostas. No entanto acho que é possível dialogar mais, os escritores precisam perder o medo, sair do armário.”

Source

Related posts