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Além do pernil de porco alvo de “sabotagem”, o que mais faltou no Natal da Venezuela? – Observador

O Natal na Venezuela esteve longe de ser fácil. Na imprensa venezuelana, é até recorrente ler-se a expressão “o pior Natal de sempre”, perante a escassez de bens e alimentos que marcou a quadra festiva. A escassez natalícia da Venezuela não se ficou apenas pelo pernil de porco, refeição tradicional do Natal daquele país, e cuja escassez causou manifestações e motins nas ruas.

Além do pernil de porco, também faltaram os brinquedos, que ficaram fora do alcance da carteira de muitos venezuelanos. Segundo o El Nacional, uma boneca Barbie custava antes deste Natal entre 250 mil e 840 mil bolívares, ou seja, o equivalente a 1,4 até 5 salários mínimos e o correspondente a um aumento de 952% em relação aos preços do Natal de 2016. Também um carrinho da marca Hot Wheels custava um valor acima das possibilidades de muitos — 114 mil bolívares, ou seja, dois terços do salário mínimo, e mais 52% do que já custava 12 meses antes.

Ainda assim, houve municípios que distribuíram brinquedos pelas populações — mas nem isso correu bem. Em Valencia, foram distribuídos vários brinquedos numa praça de touros daquele município que, à semelhança da maioria, é agora governado por forças chavistas, uma vez que grande parte da oposição boicotou as eleições de 10 de dezembro. O evento contou com várias crianças, enquanto os brinquedos eram atirados para o ar, sem critério. A distribuição gerou situações de algum caos e pânico, tendo surgido relatos de crianças feridas, asfixiadas e também que se perderam dos pais.

Em Caracas, nos bairros populares de 23 de Enero e Pinto Salinas, também houve quem rejeitasse os brinquedos oferecidos pelos CLAP (Comités Locais de Abastecimento e Produção, órgãos estatais que vendem comida e bens diretamente às populações através de um sistema de racionamento), quando descobriram que estes não eram para crianças, mas sim para cães.

Também há falta de gasolina, apesar da Venezuela ser um dos maiores produtores de petróleo do mundo — em setembro, devido à crise, à deterioração das infraestruturas e escassez de produtos químicos necessários para refinar o petróleo, a produção de gasolina da Venezuela estava a 35% do seu total em setembro deste ano. Também este problema foi reconhecido pelo regime venezuelano, mas de igual forma as culpas foram passadas para outras paragens.

A escassez de gasolina afetou sobretudo os estados mais a Oeste na Venezuela — Barinas, Portuguesa, Apure, Lara e Cojedes —, onde os dias da época festiva foram marcados por longas filas nos postos de abastecimento combustível. A situação levou a que, numa medida exclusiva para aqueles cinco estados, fossem decretadas medidas de racionamento de abastecimento de gasolina. Segundo ordens governamentais, o abastecimento está agora limitado a 35 litros para carros e 5 litros para motas.

Diosdado Cabello, vice-presidente do PSUV, partido do regime e liderado por Nicolás Maduro, e um dos membros mais destacados da elite governativa da Venezuela, disse esta quinta-feira que, tal como no caso dos pernis de porco, “existem componentes que nós não produzimos e que quando vamos comprá-los fora os gringos bloqueiam-nos”. “É um ataque contra o povo da Venezuela”, disse, acrescentando que a “a estratégia da direita é que o povo lute entre si”.

Nicolas Maduro acusou Portugal de sabotar a venda de pernil de porco à Venezuela

As declarações de Diosdado Cabello aconteceram depois de Nicolás Maduro ter acusado Portugal de ter “sabotado” uma encomenda de 400 mil pernis de porco que estaria pronta para ser entregue na Venezuela através das CLAP, com cada família a ter direito a 5 quilos de carne. “O que se passou com o pernil? Sabotaram-nos! Posso falar de um país: Portugal. Estava tudo pronto, porque nós comprámos todo o pernil que havia na Venezuela. Todo. Então tínhamos de importar e assim deu a ordem e assinei os pagamentos. Mas perseguiram-nos as contas bancárias e os barcos”, disse o líder venezuelano.

Em reação, esta quinta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, disse que “o governo português não tem, seguramente, esse poder de sabotar pernil de porco”. No mesmo dia, a Raporal, empresa portuguesa de agropecuária, explicou que não forneceu a Venezuela de pernil de porco porque o regime de Nicolás Maduro tem um pagamento de 40 milhões de euros em atraso, referente a uma encomenda de 2016. A Raporal é uma empresa de agropecuária cujos serviços têm sido subcontratados pela Iguarivarius, empresa de distribuição alimentar cujo presidente do conselho de administração é Mário Lino, ex-ministro das Obras Públicas de José Sócrates.

Mais tarde, outras personalidades do regime venezuelano colocaram as culpas da escassez de bens na Colômbia — país com quem a Venezuela partilha uma fronteira a Oeste e um historial de tensão política e militar — e também os EUA — que já durante a presidência de Donald Trump reforçaram as sanções que Barack Obama já tinha aplicado a figuras de topo do regime.

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