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Afinal, até onde vai a influência do dinheiro no título do City? Veja a análise | futebol inglês

A cada conquista relevante de Guardiola surge o debate: teria sido obra do treinador ou do dinheiro que o acompanha? É razoável dizer que, após uma década de Pep, o mundo do futebol se divide entre os que o seguem como religião, os indiferentes, e os desconfiados de cada movimento do catalão. O mais novo exemplo foi a conquista do Campeonato Inglês com o Manchester City.

Ao longo da temporada, a sensação foi de encantamento com o futebol praticado. O City venceu sem fazer concessões ao seu jogo, por mais que a primeira temporada de Guardiola na Inglaterra (terceiro lugar, a 15 pontos do campeão Chelsea) tenha criado “verdades absolutas” que se provaram precipitadas.

Afinal, como alguém conseguiria controlar seus adversários se a Premier League é tão intensa e física? Dominar a bola, se defender atacando, trocar passes desde a defesa, prescindir de um volante-volante, ter dois camisas 10 jogando como 8… Como seria possível fazer tudo isso e ainda ganhar o título com cinco rodadas de antecipação? Bem, Guardiola conseguiu.

Guardiola é celebrado por torcedores em montagem como James Bond e ironiza distância para rivais (Foto: Getty Images)Guardiola é celebrado por torcedores em montagem como James Bond e ironiza distância para rivais (Foto: Getty Images)

Guardiola é celebrado por torcedores em montagem como James Bond e ironiza distância para rivais (Foto: Getty Images)

E o fez com recordes. Foram 18 vitórias seguidas entre agosto e o último dia de dezembro, superando com sobras as 13 do Chelsea em 2016/17. Além disso, ganhou jogos grandes: os seis contra os Blues, Tottenham e Arsenal – e mais o Manchester United fora e o Liverpool em casa.

Contra os menores, não perdoou: 6 a 0 no Watford, 7 a 2 no Stoke, 5 a 0 no Crystal Palace e 5 a 1 no Leicester, o mesmo time que aplicou uma das mais duras derrotas de Guardiola em sua temporada de estreia. As coisas de fato mudaram bastante de um ano para cá.

Evolução de 2016/17 para 2017/18:

  • Posse de bola: 60,9% -> 65,9%
  • Percentual de passe: 85,5% -> 88,8%
  • Passes por jogo: 598 -> 733
  • Gols por jogo: 2,1 -> 2,81
  • Gols sofridos por jogo: 1,02 -> 0,89
  • Finalizações: 16,7 -> 17,6
  • Finalizações contra: 7,9 -> 6,3
  • Pontos por jogo: 2,05 -> 2,63

Ok, mas e o dinheiro? O sucesso deste time está atrelado aos investimentos em larga escala do clube. Não deixa de ser uma relação de causa e consequência, embora não possamos de forma alguma ignorar o meio. Como o próprio Guardiola admitiu em recente entrevista, ele também é um “cara sortudo”.

– Eu posso lhe garantir uma coisa: é impossível jogar como jogamos e atingir os resultados que atingimos sem os melhores jogadores. É impossível, e hoje os melhores jogadores custam muito dinheiro. Quando as pessoas dizem: “Você ganha porque gastou 600 milhões de libras”… Não sei quanto gastamos nesses dois anos, mas digo que eles estão certos. É impossível fazer isso sem dinheiro. Precisamos de dinheiro para comprar os melhores jogadores para jogar nesse nível o tempo todo.

– A única coisa que eu diria é que todas as grandes equipes ao redor do mundo gastam muito dinheiro. Depois disso, é a maneira como jogamos, a ideia que jogamos de acordo com o que nós treinadores decidimos. Mas para alcançar esses resultados você precisa de investimento. Caso contrário, você precisa de um milagre, e eu não sou capaz de fazer isso – completou.

Quanto custou cada elenco do top-6?

Fonte: Transfermarkt

A discussão chega a um novo patamar. Está claro que ganhar como Pep ganhou era impossível sem dinheiro, mas será que também não era igualmente impossível ganhar apenas com dinheiro?

Depois de sua primeira temporada na carreira sem títulos, Guardiola identificou que era necessário reconstruir a sua defesa, envelhecida e lenta, e por isso não poupou esforços para contratar Ederson, Walker, Mendy (que se machucou em setembro) e Danilo. Em janeiro chegou Laporte para cobrir as lesões de Kompany e Stones. E assim os números foram assustando…

Quem gastou mais desde a chegada de Pep?

Treinador Clube Milhões de libras
Guardiola Manchester City 476
Conte Chelsea 351
Mourinho Manchester United 314
Klopp Liverpool 223
Wenger Arsenal 203
Pochettino Tottenham 185

Todos muito caros, sem dúvidas, mas nenhum na condição de superestrela. Foi um dinheiro bem gasto, especialmente no que diz respeito às carências do elenco.

Salário médio anual por jogador

Clube Milhões de libras
Manchester United 5,24
Manchester City 5,23
Chelsea 4,45
Arsenal 4
Liverpool 3,6
Tottenham 3,1

Pode não parecer, mas o City não possui um grupo numeroso. Foram utilizados 24 jogadores na Premier League, só que apenas 16 têm mais de 500 minutos ou 10 jogos:

  1. Ederson (2.925 minutos)
  2. Otamendi (2.788)
  3. De Bruyne (2.773)
  4. Walker (2.636)
  5. Fernandinho (2.525)
  6. David Silva (2.257)
  7. Sterling (2.251)
  8. Sané (2.064)
  9. Agüero (1.969)
  10. Delph (1.465)
  11. Gabriel Jesus (1.297)
  12. Bernardo Silva (1.244)
  13. Kompany (1.216)
  14. Gündogan (1.152)
  15. Stones (1.142)
  16. Danilo (1.041)

O diferencial, para Guardiola, foi o tempo. Com ele a seu favor, o catalão pôde implementar suas ideias com clareza e pavimentar o abismo criado para os demais na Premier League. E não adianta citar a eliminação para o Liverpool na Liga dos Campeões, pois o mata-mata envolve diversos contextos que também já vitimou grandes equipes do futebol inglês, como o Arsenal invicto de Wenger e o Chelsea de Mourinho.

No tiro longo, da regularidade, ninguém foi capaz com Pep.

– A ideia é fundamental. A ideia é muito importante. Você tem que dar passes e passes, um passe extra. O passe nos ajuda a estar sempre juntos. Nós corremos para recuperar a bola, não correr por correr. Então não é pressionar apenas por pressionar. Sempre acreditamos que, se recuperamos a bola lá no alto, estamos perto de marcar um gol. Sem a bola todos correm. Com a bola, tentamos jogar. Nós os deixamos correr para tentar atacar no momento certo, tomando a decisão no momento certo. Essa é a coisa mais difícil no futebol.

– O que eu não quero é perder a bola. Jogamos simples, fazemos as coisas simples. O resto é porque somos bons – resumiu o treinador.

Guardiola e David Silva, um dos muitos que evoluíram neste Manchester City (Foto: Getty Images)Guardiola e David Silva, um dos muitos que evoluíram neste Manchester City (Foto: Getty Images)

Guardiola e David Silva, um dos muitos que evoluíram neste Manchester City (Foto: Getty Images)

Não parece o caso de quem apenas coloca os jogadores em campo e os deixa jogar. Neste caso, Sterling dificilmente dobraria a sua marca de gols de uma temporada a outra (11 para 22). Tampouco Delph, um meia, se tornaria uma opção confiável na lateral esquerda. Ou Fernandinho e David Silva não pareceriam ter alguns anos a menos.

E o que falar de De Bruyne, que passou de um talento inconstante a candidato a melhor jogador do campeonato? Ederson? Otamendi? Sané? Todos evoluíram.

Guardiola pode ser um cara de sorte, mas quem trabalha junto também tem por quem agradecer.

E como joga? Leia a análise de Leonardo Miranda (blog Painel Tático):

Talvez a grande diferença do City dessa temporada para o de 2016/17 seja a forma como Guardiola flexibilizou suas ideias para a Premier League. A filosofia de sempre ter a bola e procurar o companheiro melhor colocado, o que se costuma chamar de “jogo de posição”, continua lá, e muitos gols foram feitos dessa forma, com Ederson tocando para os zagueiros.

Mas Guardiola entendeu que a Premier League é um campeonato de correria, muita intensidade e com times preparados para o contra-ataque. Por isso, o City, em muitos jogos, procurava pressionar muito o adversário e aproveitar os espaços para sair em velocidade.

O gol de Gabriel Jesus contra o Everton é um exemplo: a jogada começa em Ederson e termina num contra-ataque fulminante, com 3 jogadores do City contra 2 adversários. Veja abaixo:

A utilização de Ederson também é um ponto importante: o reserva da Seleção Brasileira é um dos melhores goleiros jogando com os pés atualmente. Isso não é só importante quando os zagueiros abrem para receber, mas também nas bolas longas e “chutões” que ele dá. São verdadeiros passes – ou até assistências – para o pessoal da frente.

Por fim, um detalhe muito interessante explica o porquê do City estar voando na temporada: a velocidade da circulação de bola. O City consegue trocar passes numa velocidade impressionante. Se você observar bem, verá que muitas vezes o jogador sequer chega a dominar a bola, passando de primeira para o companheiro. Esse movimento quebra o adversário e faz o time chegar rapidamente na frente com muitos jogadores. Esse gol sobre o Stoke City, em outubro, é um exemplo (veja a partir dos 23s):

Perguntamos a especialistas de diversos veículos brasileiros qual foi a influência do dinheiro neste título do Manchester City. O que ele comprou – e o que não comprou? Confira abaixo:

Rafael Oliveira (ESPN Brasil)

Relacionar o sucesso do Man City ao dinheiro é perfeitamente normal para entender a mudança de status do clube na última década. Mas reduzir o nível atingido pelo time de Guardiola em 2017/18 ao fator econômico é simplista e até desonesto.

O investimento naturalmente ajudou no processo de renovação do elenco, mas muitos jogadores evoluíram como reflexo de um trabalho coletivo que potencializa as individualidades. Elenco caro não é exclusividade do Man City, mas quantas equipes são tão dominantes dentro de campo? O desempenho na Premier League evidencia que há algo diferente ali. A execução de um modelo que gera tanta imposição é algo que vai além do dinheiro.

O dinheiro comprou o melhor e mais regular futebol do planeta, construído a partir da chegada de Pep Guardiola, ideias transferidas para o campo que revolucionaram o futebol nos últimos anos, que se reafirmaram num novo país, com outra cultura de jogo, sem tradição pré-estabelecida do clube em questão. Um verdadeiro assombro. A grana infinita permitiu adequar ainda mais o elenco às necessidades nessa atual temporada, é inegável. Mas isso não se fez com a chegada dos melhores do mundo. Chegaram jogadores com potencial para evolução, casos de Gabriel Jesus, Bernardo Silva e Sané. O modelo de jogo propiciou o crescimento não só desses como de nomes mais antigos no clube, como David Silva, Sterling e, principalmente, De Bruyne, que flertou com o Olimpo da Bola de Ouro pelo primeiro semestre que fez.

O que dinheiro nenhum no mundo garante é resultado em competições mata-mata, ainda mais nesse nível de exigência, em reta final de Liga dos Campeões. Guardiola parece ser influenciado pelas eliminações mais do que consegue influenciar esses confrontos. Mesmo os mais abastados têm os seus pesadelos para administrar.

Bruno Formiga (Esporte Interativo)

A fortuna do City comprou competitividade. Os investimentos deram ao clube continuidade e credibilidade no mercado. Ou seja, repetidamente o time tem brigado. E, quanto mais se briga, mais se ganha. E, quanto mais se ganha, mais se atrai. De bons jogadores a bons treinadores. O dinheiro do City, que trouxe tudo isso, também permitiu o projeto com Guardiola. Tornou viável o clube para o patamar que o técnico imagina para ter excelência.

Por outro lado, o dinheiro não compra tradição. Não compra história e nem peso. E isso na hora de recordar pelo quê aqueles jogadores estão jogando talvez pese. O caminho para uma equipe assim convencer é mais árduo e mais pesado. Há sempre mais dúvidas do que certezas. E há ainda a chatice de achar que o City não faz mais do que a obrigação em ganhar já que torra dinheiro – o que não é verdade, já que Guardiola comprou vários nomes que não são do primeiro escalão e há concorrentes que gastam tanto quanto e não conseguem o mesmo rendimento em campo.

Sterling pulou de 11 para 22 gols na temporada (Foto: Getty Images)Sterling pulou de 11 para 22 gols na temporada (Foto: Getty Images)

Sterling pulou de 11 para 22 gols na temporada (Foto: Getty Images)

Leonardo Miranda (GloboEsporte.com)

O que o dinheiro comprou e compra no futebol atual é a matéria-prima. O jogador que já provou competência e competitividade em outros cenários, como Gabriel Jesus e Leroy Sané, com certeza é atraído pela grana – não só no salário, mas condições de trabalho e possibilidade de ganhar títulos pesa muito na escolha que um jogador tem ao assinar com um clube.

Mas dinheiro, por si só, não explica o sucesso do City – vale lembrar que o clube com maior faturamento na Inglaterra é o rival United. O quanto o grupo de jogadores consegue assimilar as ideias do treinador e colocá-las ao longo de 38 rodadas é fruto do treinador – e Pep prova, com seu 23º título, que sobra competência. Amontoar talento pode funcionar em cenários menos complexos, como o PSG prova. Mas, em outras ligas, como a Inglesa, é preciso mais.

André Kfouri (ESPN Brasil)

Um dos argumentos mais desonestos dos críticos a esse time é exatamente o orçamento. Primeiro porque, mesmo que fosse um time montado com estrelas do futebol mundial contratadas e reunidas, isso não significa sucesso em campo, garantia de troféu, nem de bom futebol.

Segundo porque não foi isso que aconteceu. Para esse ano foram contratados jogadores de defesa primordialmente, laterais, zagueiros, goleiro, pois a ideia de jogo era diferente daquela que por exemplo orientou as contratações do PSG, só para citar um exemplo de quem foi atrás de jogadores consagrados. O City não fez isso. Ele montou um sistema defensivo que atua como base do seu modelo de jogo.

O dinheiro não comprou nenhum astro do futebol mundial, então esse argumento não pode ser usado. E o dinheiro também não conseguiu comprar algo que pudesse resolver imediatamente um dos raros defeitos desse time: uma maneira mais forte do ponto de vista mental de suportar momentos que os jogos passam a se tornar perigosos para ele. O time se acostumou a dominar partidas de tal forma, que nos breves momentos em que o time adversário está melhor, mais agressivo, o City teve momentos de descontrole. Isso aconteceu na série de três derrotas e em outras partidas sem algum dano, em que o time pôde resolver.

Carlos Eduardo Mansur (O Globo)

O dinheiro comprou, sim, jogadores caros. Mas, ao contrário do que se propaga, não comprou uma seleção global. Prioritariamente, trouxe jogadores jovens, muitos deles defensores. Mas, salvo talvez David Silva e Kevin De Bruyne, é importante levar em conta que este City não tem, em praticamente nenhuma outra posição, um jogador consensualmente visto pelo mundo como um dos três melhores do planeta em sua posição. Então, se o time jogou um futebol sublime, foi pelo trabalho do mais genial treinador destes tempos. Este nível de futebol, o melhor visto no planeta nesta temporada, seguramente não foi o dinheiro que comprou. E foi um jogo tão bonito que tornou o City o time que o mundo tinha prazer de ver. E isto, para um clube que busca projeção global, não há dinheiro que pague.

Paulo Vinicius Coelho (FOX Sports)

O dinheiro comprou os jogadores e não comprou o título. Porque ano passado a compra de jogadores importantes não levou ao troféu. Dito isso, o City joga o futebol mais moderno. E Guardiola é o técnico mais revolucionário. Porque não se conforma apenas com a vitória e impõe seu estilo aos adversários. Há várias possibilidades e estilos de jogar bem, mas o City é o futebol mais próximo de ser chamado de modelo.

Mauro Beting (Esporte Interativo)

Comprou tempo para Guardiola entender melhor o funcionamento do jogo sem bola na Premier League. Sem tanta posse, ele apanhou mais do que deveria na primeira temporada. Entendendo melhor o jogo, capacitando em qualidade e quantidade a meta, o miolo de zaga e as laterais, deu robustez e liga à equipe. A fase espetacular de De Bruyne (ao menos até março) e David Silva garantiram a fluidez que os excelentes momentos de Agüero, Sané, Bernardo Silva, a fase goleadora de Sterling, e mesmo as ausências de Gabriel Jesus, não prejudicaram. Foi o melhor time do mundo até encarar, por ironia, um endiabrado Liverpool de Klopp. Um que sempre soube como jogar contra Pep. Atacando. Contragolpeando. Acabando com as aspirações europeias. Uma pena. Mas faz parte do livreto planejado por Guardiola. Vai sofrer ainda na Europa. Mas não precisava ser para um vizinho. Como não precisava ser na temporada passada para um ascendente Monaco.

O dinheiro comprou uma reformulação no elenco através do rejuvenescimento de setores cruciais, em especial a defesa. Não comprou estilo de jogo, porque isso o dinheiro não compra, uma filosofia fiel às ideias de seu treinador. Ele não apenas calou as dúvidas sobre a possibilidade de ganhar a Premier League no seu próprio estilo, como ainda o fez com superioridade incontestável

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